O caminho a partir da transformação pessoal até a mudança da sociedade

matthieu-ricard-1por Matthieu Ricard, pesquisador, ativista, facilitador na ponte entre ciência e meditação, e monge budista, autor de “A revolução do altruísmo”

A natureza humana é inerentemente egoísta ou altruísta?

Apesar da violência e conflitos que vemos constantemente na mídia, estudos mostram que a violência diminuiu continuamente nos últimos séculos. E nossa existência cotidiana também está preenchida de cooperação, amizade, afeição e cuidado com o outro.

Investigações científicas nos últimos 30 anos têm progressivamente modificado a distorcida visão de que a natureza humana é inteiramente motivada pelo egoísmo, uma crença que vinha dominando há muito tempo a psicologia ocidental e as teorias evolutivas e econômicas.

Eu mesmo estou profundamente convencido de que amor e compaixão — as duas faces do altruísmo — são os valores que norteiam a existência humana e o coração do caminho espiritual. A gentileza amorosa é o desejo de que todos os seres tenham felicidade, enquanto a compaixão foca em erradicar seu sofrimento.

Minhas experiências com mestres espirituais na tradição do budismo tibetano ao longo de 45 anos vivendo na Ásia influenciaram-me profundamente. Particularmente inspiradora é a convicção budista de que todo ser humano possui um potencial indestrutível de bondade e sabedoria. Também aprendi lições valiosas ao participar de serviço humanitário, incluindo 140 projetos médicos e educacionais no região do Himalaia através da Karuna-Shechen, a organização que fundei.

Nossa era está em confronto com muitos desafios, entre elas a necessidade de conciliar as demandas em três escalas temporais: curto, médio e longo prazo, em que três tipos de interesses se sobrepõe: os nossos, os interesses daqueles próximos a nós e os de todos os seres sencientes. A curto prazo, precisamos responder à demanda imediata da economia presente; a médio prazo, à busca pela felicidade; e a longo prazo, à futura saúde do meio-ambiente.

Em relação ao meio-ambiente, até recentemente, sua evolução vinha sendo medida em termos de eras geológicas e climáticas, ao longo de milhões de anos. Atualmente, o ritmo das mudanças continua acelerando devido à convulsão ecológica, provocada pelas ações humanas. Em particular, a “Grande Aceleração” que tem ocorrido desde os anos 50 definiu uma nova era, chamada de Antropoceno (“era dos humanos”), em que, pela primeira vez na história, a atividade humana está alterando profundamente (e atualmente degradando) todo o sistema que mantém a vida na Terra.

Esse desafio completamente novo nos pegou de surpresa. Se nossa obsessão com o crescimento quantitativo continuar, com o consumo dos recursos naturais aumentando na atual taxa exponencial, precisaremos de três planetas em 2050. Não temos isso.

O que podemos fazer sobre essa condição? Apenas um conceito revolucionário e unificador poderá nos guiar para fora desse complexo labirinto de preocupações. Por décadas, meus encontros com líderes espirituais, filósofos, psicólogos, neurocientistas, economistas e ambientalistas me convenceram de que o altruísmo é o cordão de Ariadne que nos permitirá ligar harmoniosamente os desafios da economia no curto prazo, qualidade de vida a médio prazo e o futuro do meio ambiente a longo prazo.

Alinhados com a ênfase de Darwin na importância da cooperação na natureza, avanços recentes na teoria da evolução nos permitem projetar um altruísmo estendido que transcende os laços de família e tribo, e enfatiza o fato de que seres humanos são essencialmente “super-cooperadores”, para usar o termo cunhado por Martin Nowak.

Avaliar as capacidades de transformação tanto individual quanto coletiva é importante se queremos encorajar o desenvolvimento de uma sociedade mais altruísta e um mundo melhor.

Milhares de anos de prática contemplativa confirmam o poder da transformação individual. Essa sabedoria das eras agora foi confirmada por pesquisas da neurociência que demonstraram: qualquer tipo de treinamento — como aprender a ler ou tocar um instrumento — induz uma reestruturação no cérebro, tanto no nível funcional quanto estrutural. O mesmo tipo de reestruturação ocorre quando cultivamos benevolência e desenvolvemos amor altruísta e compaixão.

Como passamos da transformação pessoal para a mudança da sociedade? Estudos recentes feitos por intelectuais como Richerson e Boyd, autores de “Not by Genes Alone”, sublinham a importância da evolução das culturas, que é mais lenta que a evolução individual, mas muito mais rápida que alterações genéticas. A evolução cultural é cumulativa e se transmite ao longo das gerações através de educação e imitação. Culturas e indivíduos continuam a se influenciar mutuamente. Pessoas que crescem em uma cultura nova são diferentes, porque seus novos hábitos alteram seus cérebros, através da neuroplasticidade, e afetam a expressão de seus genes, com a epigenética. Esses indivíduos contribuem para a evolução de sua cultura e instituições, de modo que o processo é repetido a cada geração. Podemos então olhar adiante para uma bem-vinda evolução em direção a sociedades mais cooperativas e altruístas.

Esse ideal está inteiramente dentro de nosso alcance. Pesquisas recentes também demonstraram que desde bem cedo na infância, estamos programados para cooperar e ajudar. Mesmo bebês muito novos reconhecem a bondade nas outras pessoas e demonstram preferi-la em relação ao oposto. No “laboratório de bebês” de Paul Bloom, na Universidade de Yale, bebês entre 6 e 10 meses foram capazes de reconhecer o comportamento bondoso e mostrar sua preferência por ele em relação a atitude que destrata outras pessoas. De modo similar, o Max Planck Institute, em Leipzig, identificou bebês de 12 meses espontaneamente exibindo comportamento de ajuda mútua e cooperação, sem serem ensinados por adultos e sem nenhuma recompensa.

Com essa fundação, podemos começar a promover uma sociedade mais altruísta, focando em cinco pontos:

  • Precisamos aprimorar a cooperação, que inclui favorecer o aprendizado cooperativo em relação ao competitivo, nas escolas e organizações.
  • Precisamos ter como objetivo a harmonia sustentável, que reduz desigualdades e preserva o meio-ambiente, fazendo mais com menos.
  • Precisamos incentivar uma economia que se importe com as pessoas. Uma economia movida por interesses egoístas não tem como aliviar a pobreza ou cuidar do meio-ambiente.
  • Precisamos de compromissos locais com um senso de responsabilidade global.
  • Precisamos estender o altruísmo a outras formas de vida: o 1,3 milhão de espécies catalogadas que são nossos co-habitantes neste mundo.

O altruísmo não deve ser relegado ao reino das nobres ideias utópicas, mantido por algumas poucas pessoas de bom coração, mas ingênuas. Muito pelo contrário, ele é um fator determinante para a qualidade da nossa existência agora e no futuro. Precisamos ter o insight para reconhecer isso e a audácia para proclamá-lo. A revolução altruísta está a caminho. Que todos sejamos parte dela.

Publicado originalmente no Huffington Post.
Imagem: Brittany, França, por Matthieu Ricard.