O que nos faz egoístas ou altruístas?

A diferença entre o altruísmo e o egoísmo não se deve portanto ao fato de ser eu que deseje alguma coisa, mas à natureza de meu desejo, que pode ser benevolente, malevolente ou neutra. Posso desejar o bem dos outros, como posso desejar o meu. O egoísmo não consiste só em desejar algo, mas em satisfazer os desejos exclusivamente centrados nos interesses pessoais, sem levar em consideração os interesses dos outros.

O ponto de inflexão entre altruísmo e egoísmo deve-se portanto à natureza de nossa motivação. É nossa motivação, o objetivo último que queremos alcançar, que dá cor a nossos atos, ao determinar seu caráter altruísta ou egoísta. Estamos longe de dominar a evolução dos acontecimentos exteriores, mas quaisquer que sejam as circunstâncias, podemos sempre examinar nossas intenções e adotar uma atitude altruísta.

Matthieu Ricard, “A revolução do altruísmo”.

Imagem: Jacques-Louis David, "Bélisaire demandant l'aumône".

Como o altruísmo pode fazer você (e o mundo) mais feliz

Trecho de um artigo de maio deste ano da revista Exame, quando Matthieu Ricard esteve em São Paulo, divulgando o livro "A revolução do altruísmo":

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“Nós sabemos que há egoísmo no mundo, mas o maior erro é pensar que somente há egoísmo”, afirmou. A falsa ideia de que o mundo está permeado de pessoas que só pensam em si mesmas é, na opinião do monge, em parte criada pela mídia, que prioriza as notícias ruins e catastróficas nos noticiários.

“Vi uma pesquisa interessante que diz que um jovem do Reino Unido, aos 20 anos de idade, já ‘viu’ cerca de 40.000 assassinatos por meio da mídia. Isso não é a vida. Nós precisamos parar com isso”, disse, chamando atenção para o fato de que não há estudos que comprovem que o ser humano é egoísta por natureza. “Há somente uma ideia, um preconceito”. 

http://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/noticias/como-o-altruismo-pode-fazer-voce-e-o-mundo-mais-feliz

Empatia, altruísmo e compaixão

Emocionar-se com o sofrimento do outro, sofrer por ele estar sofrendo, ficar alegre quando ele está alegre e triste quando ele está aflito, demonstram ressonância emocional.

Por outro lado, distinguir as causas imediatas ou duradouras, superficiais ou profundas dos sofrimento do outro e ter a determinação de solucioná-los vêm da sabedoria e da compaixão “cognitiva”. Esta última está ligada à compreensão das causas do sofrimento. Com isso, sua dimensão é mais ampla e seus efeitos maiores.

Esses dois aspectos do altruísmo, emocional e cognitivo, são complementares e não constituem duas atitudes mentais separadas e estanques. Em algumas pessoas, num primeiro momento, o altruísmo ganha a forma de uma experiência emocional mais ou menos forte, suscetível de transformar-se em seguida em altruísmo cognitivo no momento em que a pessoa começa a analisar as causas do sofrimento. No entanto, o altruísmo permanece restrito se for limitado unicamente ao componente emocional.

Matthieu Ricard, em “A revolução do altruísmo”, parte 1.

A importância da lucidez

O altruísmo deve ser iluminado pela lucidez e sabedoria. Não se trata de consentir indistintamente com todos os desejos e caprichos dos outros. O amor verdadeiro consiste em associar uma benevolência sem limites ao discernimento sem falhas. Definido desse modo, o amor deve considerar todos os pormenores de cada situação e se perguntar: “Quais são os benefícios e os inconvenientes a curto e a longo prazo do que eu vou fazer? Meu ato irá afetar um pequeno ou grande número de indivíduos?” Transcendendo qualquer parcialidade, o amor altruísta deve considerar lucidamente a melhor maneira de realizar o bem para os outros. A imparcialidade exige não favorecer alguém pelo simples fato de sentir mais simpatia por uma pessoa do que por outra que também se encontra em necessidade, talvez muito maior.

Matthieu Ricard, “A revolução do altruísmo”, parte 1

Como o altruísmo pode salvar o planeta

matthieu-ricard-natureNesta entrevista, o monge francês especialista em felicidade e altruísmo Matthieu Ricard fala sobre a relação entre altruísmo e ativismo ambiental.

Ricard era famoso por ser uma autoridade em felicidade, em todos sentidos. Não apenas escreveu um livro que cobre o tema de todos os ângulos (“Felicidade – A prática do bem-estar”), mas ao ter seu cérebro analisado via ressonância magnética, em uma pesquisa que estudou o cérebro de meditadores, ganhou o apelido de a “pessoa mais feliz do mundo”.

Agora seu foco é o altruísmo, assunto que pesquisou intensamente nos últimos cinco anos, principalmente do ponto de vista científico, resultando em um tomo de 720 páginas: “A revolução do altruísmo”.

Em julho deste ano, Ricard foi entrevistado pelo ambientalista Mark Tercek, presidente da Nature Conservancy.

Mark Tercek: Adorei seu novo livro, “A revolução do altruísmo”, e como ele desafia as pessoas a serem mais altruístas para tornar o mundo um lugar melhor. Qual é a sua definição de altruísmo?

Matthieu Ricard: Altruísmo é um estado mental benevolente. Ser altruísta é estar preocupado com o destino de todos à nossa volta e desejar o bem deles. Isso deve vir junto com a determinação de agir pelo benefício deles. Valorizar os outros é o principal estado mental que leva ao altruísmo.

Quando o altruísmo é nosso estado mental dominante — nosso estado-padrão — ele se expressa como benevolência em direção à qualquer um que entre em nosso campo de atenção, traduzindo-se como boa vontade, prontidão e disposição para cuidar dos outros. Quando percebemos que os outros têm uma necessidade premente, geramos preocupação empática. Quando a necessidade se refere ao anseio por felicidade, o altruísmo estimula a realização dessa aspiração. Quando a necessidade se refere a sofrimento, a compaixão irá nos induzir a remediar o sofrimento e suas causas.

Devemos, obviamente, fazer todo possível para colocar o altruísmo e a compaixão em ação. Contudo, não devemos limitar o uso da palavra “altruísmo” a ações externas, já que não temos como saber ao certo qual é a motivação que as inspira. Um obstáculo para alguma ação — algo que está além do controle da pessoa querendo agir — não diminui em nada a natureza altruísta de sua motivação.

Obviamente, eu gosto especialmente da ênfase que o livro dá aos desafios ecológicos e em como o altruísmo pode dar suporte a um robusto progresso na área ambiental. Que conselho você dá para ambientalistas sobre como ser mais altruísta nesse trabalho?

A questão do meio-ambiente é algo complexo nas esferas científica, econômica e política. Mas no final é uma questão de altruísmo versus egoísmo. Se não ligamos para o destino das gerações futuras e das milhões de outras espécies que são nossos co-cidadãos neste mundo, não iremos nem perceber que há um problema ambiental!

Alguns podem pensar que isso não importa, pois não estarão aqui em 100 anos. O comediante Groucho Marx é famoso por ter dito: “Por que eu deveria me importar com as gerações futuras? O que elas fizeram por mim?”. Infelizmente, um bom número de pessoas hoje diz isso de modo sério.

Então, meu humilde conselho aos ambientalistas seria demonstrar e explicar que o altruísmo é o único conceito que pode conciliar as necessidades da economia no curto prazo, a qualidade de vida no médio prazo e as questões ambientais no longo prazo.

Vamos assumir que a maioria de nós sejamos basicamente boas pessoas dispostas a construir um mundo melhor. Nesse caso, podemos fazer isso juntos graças ao altruísmo. Se tivermos mais consideração pelos outros, iremos promover uma economia mais humana, e iremos promover a harmonia na sociedade e remediar desigualdades. Iremos fazer tudo que for necessário para não transgredir os limites do planeta, onde a humanidade e o restante da biosfera possam continuar a prosperar.

Temos que demonstrar o fato de que estamos todos no mesmo barco — de modo fundamentalmente interdependente — e que precisamos aprimorar nosso nível de cooperação e solidariedade.

Um dos desafios que nós ambientalistas encontramos é que há empresas, governos e pessoas engajadas em atividades extremamente prejudiciais ao ambiente. Como podemos lidar com tais agentes de modo altruísta?

Se acreditamos que uma sociedade mais altruísta é possível, não devemos ficar desencorajados aos nos deparar com as diversas expressões de egoísmo. Quando um cínico grupo de interesse faz do próprio lucro a prioridade absoluta, ignorando as consequências prejudiciais de suas atividades para a população e toda a biosfera, é legítimo falar sobre egoísmo institucionalizado.

A melhor maneira é agir em conjunto para efetivarmos uma mudança de cultura. Felizmente, culturas mudam mais rápido que os genes. Hoje, ninguém ousaria dizer em público: “A escravidão até que não era mal” ou “Por que não anulamos a decisão de deixar as mulheres votarem?”. Há um ponto em que você se dá conta de que não é mais possível apoiar certos tipos de comportamento.

Hoje, se você dizer a investidores ou empresários cínicos, negadores do aquecimento global ou executivos da indústria do tabaco, que eles precisam ser compassivos, provavelmente eles responderiam que até podem ser compassivos em um nível pessoal, mas que isso não é o trabalho deles. No entanto, hoje já se tornou quase impossível alguém dizer: “Eu não me importo com as gerações futuras”, “Não ligo para a miséria em meio à riqueza”, ou “Não ligo se houver 200 milhões de refugiados do clima em 2030”.

Precisamos ajudar as pessoas a compreenderem que elas são seres humanos, com mecanismos cerebrais embutidos para cuidar e se importar com os outros, e que elas podem (e devem) trazer sua humanidade para o trabalho. É possível mostrar a elas que nessa situação todos ganhariam.

Admiro a ênfase em ciência simples e direta de seu livro. Você afirma que a ciência é clara: podemos treinar nossas mentes para sermos mais bondosos e compassivos. Por favor, fale mais disso.

Há muito tempo existe uma premissa nas áreas de psicologia, economia e evolução de que o ser humano é essencialmente egoísta. Mas nos últimos 30 anos, novas descobertas científicas demonstraram que o altruísmo genuíno existe e que pode ser estendido além de nosso círculo próximo para outras pessoas e espécies.

A colaboração entre neurocientistas e meditadores mostrou que o altruísmo e a compaixão são habilidades que podem ser cultivadas com o treino. Pesquisas demonstraram sem ambiguidade que o treinamento em altruísmo e compaixão provoca alterações funcionais e estruturais no cérebro, podendo até alterar a expressão genética [epigenética]. Esses estudos também possibilitaram a diferenciação entre empatia (faculdade de ressoar com os sentimentos alheios), altruísmo (o desejo de que os outros sejam felizes) e compaixão (o desejo de que eles estejam livres do sofrimento).

Apesar de a competição ser algo em geral mais visível e espetacular que a cooperação, estudos recentes mostraram que a evolução precisa de cooperação para criar altos níveis de organização. Tudo indica que hoje estamos precisando nos mover para o próximo estágio de cooperação, para poder lidar com os muitos desafios de nosso tempo.

Acredito que ambientalistas se dariam melhor se brigassem e discutissem menos, e colocassem ênfase na busca por pontos em comum, colaboração e cooperação — mesmo com alguns dos agentes considerados como os “vilões”. Mas críticos acham isso ingênuo. O que você pensa?

É muito melhor ganhar as pessoas trazendo o melhor delas à tona. Isso geralmente pode ser alcançado encontrando-se pessoalmente sempre que possível. Lembre-se do que disse Nelson Mandela, sobre o tipo de atitude pode ajudar causas ambientais ou políticas:

“Sempre soube que nas profundezas de cada coração humano há misericórdia e generosidade. … Para odiar, as pessoas precisam aprender a fazer isso, e se elas podem aprender a odiar, então podem ser ensinadas a amar, porque o amor vem mais naturalmente ao coração humano do que o oposto. … A bondade é uma chama que pode ser ocultada, mas jamais extinta”.

Essas não são palavras de alguém perdido em devaneios utópicos, mas de alguém que venceu o egoísmo institucionalizado de pessoas que, à primeira vista, não pareciam inclinadas a praticar gentileza e compaixão.

Qual a melhor forma de ampliar e acelerar nossos esforços para proteger a natureza? Você acha que as práticas de treinamento da mente em que você é campeão podem se disseminar amplamente a ponto de realmente mudar o mundo?

Sim, trazer para um nível ótimo nossas capacidades de cuidar e se importar com os outros, incluindo outras espécies e gerações futuras, é algo que todos podem fazer. Sempre me surpreendo com o fato de ninguém questionar a necessidade de tempo e esforço para aprender a ler e escrever, tocar um instrumento, treinar um esporte, adquirir habilidades profissionais. Por que então as pessoas assumem que qualidades humanas básicas como benevolência, atenção e equilíbrio emocional devam estar já totalmente desenvolvidas, sem precisarmos fazer nada?

Então o ponto não é necessariamente sobre disseminar a meditação em si, mas fazer as pessoas compreenderem que o que quer que façam na vida, elas vão se beneficiar imensamente se desenvolverem até a maturidade suas qualidades humanas mais construtivas e valiosas.

junte-seEntão, quando o número de pessoas que cultivaram essas habilidades altruístas e cooperativas chegar a um ponto crítico, haverá um ponto de virada na cultura dominante. A interação entre mudanças individuais e a mudança da sociedade está no coração da evolução da cultura.

Como devemos falar com pessoas bondosas mas que se sentem desconfortáveis com meditação ou outras práticas espirituais?

Não é preciso usar palavras como “meditação” ou “espiritualidade”, que podem incomodar diversas pessoas que se beneficiariam com uma outra abordagem. É mais preciso e adequado falar de treinamento da mente e cultivo de qualidades humanas básicas. Isso pode ser feito com a ajuda de um caminho espiritual, mas também pode ser feito de modo secular. Quem seria contra aumentar nossa compaixão e atenção plena que se importa com o outro?

Você parece sempre feliz, de bom humor e pronto para desfrutar de uma gargalhada. Qual é o segredo?

Nenhum segredo. É muito simples: altruísmo e compaixão. Ainda tenho um longo caminho para trazer essas qualidades para um nível perfeito, mas eu sinceramente tento ser uma pessoa melhor dia após dia, ano após ano. Isso me dá alegria e um sentimento de satisfação. Meu slogan poderia ser: “Transforme a si mesmo para transformar o mundo, ou para melhor servir aos outros”.

Publicado originalmente em: How Altruism Can Save the Planet. Imagem no topo: Matthieu Ricard.

Atenção plena precisa de altruísmo

matthieu-ricard-1De um texto do Matthieu Ricard, no Brasil Post (obs: por “mindfulness”, leia-se “atenção plena”):

… Quando instrutores qualificados como Jon Kabat-Zinn, ele mesmo uma pessoa muito compassiva, ensina a prática mindfulness, as principais mensagens que vêm à mente são de benevolência, altruísmo e compaixão.

No entanto, nem sempre é assim. Um professor pode deixar de fora esse importante componente na sua apresentação ou método. Quando a bondade e a compaixão não estão claramente presentes no treinamento, há sempre o risco de usar a mindfulness meramente como ferramenta para aumentar a concentração e o foco, com o objetivo de atingir metas eticamente questionáveis. …

… Para proteger essa prática de qualquer desvio, um componente claro de altruísmo precisa ser incorporado desde o início. Precisamos chamá-la, sistematicamente, de “mindfulness compassiva”.

Ao fazermos isso, oferecemos uma maneira muito poderosa e secular de cultivar a benevolência e promover uma sociedade mais altruísta, ao mesmo tempo cultivando a atenção plena a qualquer momento. Para ser totalmente transformadora, a revolução mindfulness deve andar de mãos dadas com a revolução altruísta.

Leia também:

Ser altruísta é a saída para construir harmonia em sociedade.

O caminho a partir da transformação pessoal até a mudança da sociedade

matthieu-ricard-1por Matthieu Ricard, pesquisador, ativista, facilitador na ponte entre ciência e meditação, e monge budista, autor de “A revolução do altruísmo”

A natureza humana é inerentemente egoísta ou altruísta?

Apesar da violência e conflitos que vemos constantemente na mídia, estudos mostram que a violência diminuiu continuamente nos últimos séculos. E nossa existência cotidiana também está preenchida de cooperação, amizade, afeição e cuidado com o outro.

Investigações científicas nos últimos 30 anos têm progressivamente modificado a distorcida visão de que a natureza humana é inteiramente motivada pelo egoísmo, uma crença que vinha dominando há muito tempo a psicologia ocidental e as teorias evolutivas e econômicas.

Eu mesmo estou profundamente convencido de que amor e compaixão — as duas faces do altruísmo — são os valores que norteiam a existência humana e o coração do caminho espiritual. A gentileza amorosa é o desejo de que todos os seres tenham felicidade, enquanto a compaixão foca em erradicar seu sofrimento.

Minhas experiências com mestres espirituais na tradição do budismo tibetano ao longo de 45 anos vivendo na Ásia influenciaram-me profundamente. Particularmente inspiradora é a convicção budista de que todo ser humano possui um potencial indestrutível de bondade e sabedoria. Também aprendi lições valiosas ao participar de serviço humanitário, incluindo 140 projetos médicos e educacionais no região do Himalaia através da Karuna-Shechen, a organização que fundei.

Nossa era está em confronto com muitos desafios, entre elas a necessidade de conciliar as demandas em três escalas temporais: curto, médio e longo prazo, em que três tipos de interesses se sobrepõe: os nossos, os interesses daqueles próximos a nós e os de todos os seres sencientes. A curto prazo, precisamos responder à demanda imediata da economia presente; a médio prazo, à busca pela felicidade; e a longo prazo, à futura saúde do meio-ambiente.

Em relação ao meio-ambiente, até recentemente, sua evolução vinha sendo medida em termos de eras geológicas e climáticas, ao longo de milhões de anos. Atualmente, o ritmo das mudanças continua acelerando devido à convulsão ecológica, provocada pelas ações humanas. Em particular, a “Grande Aceleração” que tem ocorrido desde os anos 50 definiu uma nova era, chamada de Antropoceno (“era dos humanos”), em que, pela primeira vez na história, a atividade humana está alterando profundamente (e atualmente degradando) todo o sistema que mantém a vida na Terra.

Esse desafio completamente novo nos pegou de surpresa. Se nossa obsessão com o crescimento quantitativo continuar, com o consumo dos recursos naturais aumentando na atual taxa exponencial, precisaremos de três planetas em 2050. Não temos isso.

O que podemos fazer sobre essa condição? Apenas um conceito revolucionário e unificador poderá nos guiar para fora desse complexo labirinto de preocupações. Por décadas, meus encontros com líderes espirituais, filósofos, psicólogos, neurocientistas, economistas e ambientalistas me convenceram de que o altruísmo é o cordão de Ariadne que nos permitirá ligar harmoniosamente os desafios da economia no curto prazo, qualidade de vida a médio prazo e o futuro do meio ambiente a longo prazo.

Alinhados com a ênfase de Darwin na importância da cooperação na natureza, avanços recentes na teoria da evolução nos permitem projetar um altruísmo estendido que transcende os laços de família e tribo, e enfatiza o fato de que seres humanos são essencialmente “super-cooperadores”, para usar o termo cunhado por Martin Nowak.

Avaliar as capacidades de transformação tanto individual quanto coletiva é importante se queremos encorajar o desenvolvimento de uma sociedade mais altruísta e um mundo melhor.

Milhares de anos de prática contemplativa confirmam o poder da transformação individual. Essa sabedoria das eras agora foi confirmada por pesquisas da neurociência que demonstraram: qualquer tipo de treinamento — como aprender a ler ou tocar um instrumento — induz uma reestruturação no cérebro, tanto no nível funcional quanto estrutural. O mesmo tipo de reestruturação ocorre quando cultivamos benevolência e desenvolvemos amor altruísta e compaixão.

Como passamos da transformação pessoal para a mudança da sociedade? Estudos recentes feitos por intelectuais como Richerson e Boyd, autores de “Not by Genes Alone”, sublinham a importância da evolução das culturas, que é mais lenta que a evolução individual, mas muito mais rápida que alterações genéticas. A evolução cultural é cumulativa e se transmite ao longo das gerações através de educação e imitação. Culturas e indivíduos continuam a se influenciar mutuamente. Pessoas que crescem em uma cultura nova são diferentes, porque seus novos hábitos alteram seus cérebros, através da neuroplasticidade, e afetam a expressão de seus genes, com a epigenética. Esses indivíduos contribuem para a evolução de sua cultura e instituições, de modo que o processo é repetido a cada geração. Podemos então olhar adiante para uma bem-vinda evolução em direção a sociedades mais cooperativas e altruístas.

Esse ideal está inteiramente dentro de nosso alcance. Pesquisas recentes também demonstraram que desde bem cedo na infância, estamos programados para cooperar e ajudar. Mesmo bebês muito novos reconhecem a bondade nas outras pessoas e demonstram preferi-la em relação ao oposto. No “laboratório de bebês” de Paul Bloom, na Universidade de Yale, bebês entre 6 e 10 meses foram capazes de reconhecer o comportamento bondoso e mostrar sua preferência por ele em relação a atitude que destrata outras pessoas. De modo similar, o Max Planck Institute, em Leipzig, identificou bebês de 12 meses espontaneamente exibindo comportamento de ajuda mútua e cooperação, sem serem ensinados por adultos e sem nenhuma recompensa.

Com essa fundação, podemos começar a promover uma sociedade mais altruísta, focando em cinco pontos:

  • Precisamos aprimorar a cooperação, que inclui favorecer o aprendizado cooperativo em relação ao competitivo, nas escolas e organizações.
  • Precisamos ter como objetivo a harmonia sustentável, que reduz desigualdades e preserva o meio-ambiente, fazendo mais com menos.
  • Precisamos incentivar uma economia que se importe com as pessoas. Uma economia movida por interesses egoístas não tem como aliviar a pobreza ou cuidar do meio-ambiente.
  • Precisamos de compromissos locais com um senso de responsabilidade global.
  • Precisamos estender o altruísmo a outras formas de vida: o 1,3 milhão de espécies catalogadas que são nossos co-habitantes neste mundo.

O altruísmo não deve ser relegado ao reino das nobres ideias utópicas, mantido por algumas poucas pessoas de bom coração, mas ingênuas. Muito pelo contrário, ele é um fator determinante para a qualidade da nossa existência agora e no futuro. Precisamos ter o insight para reconhecer isso e a audácia para proclamá-lo. A revolução altruísta está a caminho. Que todos sejamos parte dela.

Publicado originalmente no Huffington Post.
Imagem: Brittany, França, por Matthieu Ricard.