Como cultivar auto-compaixão

Dalai Lama, com o pesquisador e autor Thubten Jinpa
Dalai Lama, com o pesquisador e autor Thubten Jinpa

O texto a seguir é um trecho do livro “Fearless Heart”, em que Thubten Jinpa apresenta o programa “Treinamento para o cultivo da compaixão” (TCC), que foi desenvolvido na Universidade de Stanford, nos EUA, como uma forma de trazer as meditações de compaixão do budismo tibetano para um público maior, de modo independente do budismo ou de uma tradição espiritual, aliadas à ciência.

Essa iniciativa vem de um pedido do Dalai Lama, durante discussões do Mind & Life Institute, que promove o intercâmbio entre meditadores e cientistas.

Abaixo, seguem trechos do capítulo sobre auto-compaixão:

O que não é auto-compaixão

… É verdade que somos mais felizes quando estamos menos focados em nosso ego e mais voltados para o mundo, mas a auto-compaixão é totalmente diferente de uma absorção narcisista no próprio ego. Pessoas verdadeiramente auto-compassivas tomam conta de si mesmas enquanto permanecem atentas aos sentimentos e necessidades daqueles ao redor. Na verdade, a saúde mental e física, que vem de sermos mais gentis conosco, nos permite cuidar melhor das outras pessoas. Quando nos fixamos em nosso ego, por outro lado, ficamos tão presos em nosso próprio mundo que não temos espaço para ninguém mais.

fb-page3Auto-compaixão também não deve ser confundida com auto-piedade. Na auto-piedade, somos capturados por nossos problemas e, ao ter pena de nós mesmos, ficamos indiferentes ao mundo ao redor. Auto-piedade é uma forma de fixação no ego, enquanto auto-compaixão nos permite ver nossas dificuldades no contexto maior da experiência humana compartilhada. Por causa de sua visão mais curta, afunilada, a auto-piedade tende a criar uma explosão com nossa situação de modo que mesmo um problema minúsculo fica parecendo esmagador e insuportável. Em contraste, a auto-compaixão permite uma atenção às proporções, que nos ajuda a lidar com obstáculos e sofrimentos de modo mais construtivo.

Auto-compaixão não é auto-gratificação. A coisa mais compassiva a fazer por nós mesmos pode não ser comer todo o pacote de salgadinhos, ou não confundir desejo com necessidade — não comprando o que não precisamos. A auto-compaixão não é um impulso para presentearmos a nós mesmo, embora às vezes, após reflexão cuidadosa, possamos decidir fazer isso. Igualmente importante: auto-compaixão não é sermos agressivos conosco por comer os salgadinhos, comprar o supérfluo ou nos dar o presente.

Finalmente, auto-compaixão não é o mesmo que auto-estima. Com auto-compaixão, nos conectamos a nós mesmos, especialmente nossas lutas e falhas, com compreensão, gentileza e aceitação. Auto-compaixão é uma orientação gentil, cuidadosa, de visão clara porém sem julgamentos, de nosso coração e mente em relação ao nosso sofrimento e necessidades. A auto-estima, por outro lado, é uma visão de si baseada em auto-avaliação. Enquanto a auto-compaixão pode contribuir para uma melhor auto-estima, ela não depende disso. …

Certamente, não há nada errado com a auto-estima em si. Mas ela frequentemente é relacionada com quantas realizações obtemos, o que leva as pessoas, incluindo crianças, a acreditarem que só serão estimadas (por elas mesmas e pelos outros) se tiverem “sucesso”. E a auto-estima é distorcida pela nossa cultura de competição, de modo que muitas pessoas entendem seu próprio valor somente em comparação com outras pessoas. …

Alguns cientistas também levantam preocupações similares. Pesquisadores descobriram que a auto-estima que depende de realizações nos deixa mais vulneráveis a sentimentos de inadequação e fracasso, quando as coisas dão errado. Alguns estudiosos mostram evidências de que a busca pela auto-estima pode prejudicar o aprendizado, especialmente o aprendizado com os próprios erros. …

junte-seAo cultivar auto-compaixão, não nos avaliamos com base em nossos sucessos mundanos, e não nos comparamos com os outros. … Então, a auto-compaixão, diferentemente da auto-estima, permite nos conectarmos melhor com os outros e ter uma disposição mais positiva com eles. …

Auto-compaixão e tipos de ligação

Todos temos a capacidade para auto-compaixão, mas não lidamos com isso da mesma maneira. Segundo pesquisadores da área, nossas diferenças vêm dos mecanismos de auto-proteção que adquirimos ao lidar com os desafios e desapontamentos na vida. Estudos sobre o desenvolvimento e personalidade de crianças dizem que a ativação e o desenvolvimento do que os cientistas chamam de sistema de afiliação nos primeiros anos da vida de uma criança são o fator-chave.

O sistema de afiliação, ou sistema de carinho (como às vezes é chamado), se refere a sentimentos de segurança, conexão e contentamento, e está ligado à nossa produção natural de opiáceos e hormônios como a oxitocina (às vezes, chamado de “o hormônio do carinho”). Através do cuidado encorajador da mãe (ou pai), idealmente, um bebê acaba reconhecendo seus pais como fontes de segurança e tranquilização. Com essas experiências iniciais, o bebê forma memórias emocionais de segurança, tranquilização e calma. O bebê se sente seguro e não se esquece disso. Nesse cenário feliz, o bebê é agraciado com o que os psicólogos chamam de “ligação segura”.

Baseados no trabalho de John Bowlby e Mary Ainsworth, estudiosos contemporâneos definem quatro tipos principais de ligação:

  1. ligação segura
  2. ansiosa e preocupada
  3. de recusa e fuga
  4. temerosa e de fuga

Mas os estilos de ligação não são apenas para bebês; esse conceito se aplica aos primeiros anos e como eles afetam nossa personalidade — especificamente, como nos relacionamos com as pessoas a quem estamos ligados por toda a vida.

Ao crescermos, dizem alguns estudiosos, nossa capacidade de nos acalmar se desenvolve a partir dessas experiências iniciais — um processo de recordação emocional, poderíamos dizer. Lá no fundo, se temos um tipo de ligação segura, acreditamos que estamos bem e seguros, ou pelo menos acreditamos nessa possibilidade, porque já vivenciamos isso antes. Idealmente, essas memórias ficam conosco como um cobertor mental de segurança, para momentos de estresse. Então, nosso estilo de ligação afeta nossos hábitos de regulação emocional, que afetam a base de nossa auto-compaixão na vida adulta.

Se nossas experiências iniciais forem menos que ideais, como adultos temos que criar aquele conforto e segurança do zero. Não é fácil, mas é bem possível, porque já temos a matéria prima: nossa experiência de sofrimento e nossa capacidade humana natural para a compaixão. Não podemos mudar nossos pais ou nossas experiências, como bebês criados em determinada cultura; mas como adultos podemos aprender maneiras diferentes de regular nossas emoções, assim como práticas para desenvolver auto-compaixão.

Se não estivermos entre os sortudos com ligação segura, podemos aprender a ter compaixão por nós mesmos exatamente por esse fato! Além disso, nossa personalidade pode ser mais flexível e receptiva a mudanças do que imaginamos.

Aprender a permanecer com nosso sofrimento

No “Treinamento para o cultivo da compaixão” (TCC), dividimos a prática de auto-compaixão em duas partes. Na primeira, cultivar compaixão por nós mesmos, aprendemos como lidar de modo compassivo com nosso próprio sofrimento e necessidades. A segunda, cultivar gentileza amorosa por nós mesmos, trata de como nos relacionamos com nossa felicidade e aspirações. Os objetivos são cultivar, respectivamente, nossa capacidade de genuinamente aceitar e cuidar de nós mesmos, e uma profunda apreciação de nossa aspiração natural e legítima à felicidade.

Em nossas aulas sobre auto-compaixão, perguntamos questões como: “Como nos sentiríamos se lidássemos com nosso sofrimento com mais abertura e aceitação, em vez de negação e auto-piedade?”. “Como nos sentiríamos se fôssemos mais gentis e cuidadosos conosco em vez de nos julgarmos e recriminarmos?”

Os participantes discutem como eles poderiam remodelar suas reações à dificuldade e sofrimento em suas vidas de maneiras mais compassivas. As respostas específicas não importam tanto quanto a consciência que eles desenvolvem no processo de responder — consciência sobre sua habitual agressividade e reações de julgamento; perceber que pode haver maneiras mais compassivas de lidarem com sua experiência; e, no ambiente seguro da aula, testarem como se sentem fazendo isso.

Geralmente, quando passamos por um tempo difícil, tentamos ignorar os sentimentos que aparecem. Isso é perfeitamente normal e compreensível. Queremos evitar a dor. Temos medo de rachar em pedaços se não nos mantermos inteiros — ou seja, suprimir nossos sentimentos a todo custo. Essa abordagem, no entanto, não é nem saudável nem sustentável a longo prazo. Sai muito cara. De muitos modos, nossas feridas emocionais são como feridas físicas. Se suprimirmos nossa dor emocional, ela vai infeccionar como uma ferida não tratada, criando algo pior que o machucado inicial — por exemplo, amargura, ou irritação e desconexão com os outros, incluindo aqueles com quem mais nos importamos.

Um participante colocou da seguinte maneira:

“Tenho tido algumas lutas silenciosas com meus sentimentos recentemente. Sentimentos de raiva, frustração, desgosto, indignação, irritação — todos ligados ao trabalho. Esses sentimentos não iam embora, ou talvez eu não quisesse que fossem. Meu ego se machucou. Estava pronto para explodir ou implodir, incerto sobre qual dos dois traria alívio. Estava envergonhado e raivoso comigo mesmo por ter tão pouco controle sobre meus sentimentos e pelos pensamentos que tive. Rejeitei a compaixão. Cansei de ser gentil com as pessoas (isso veio com a raiva). Sentia-me fora de harmonia com o Universo. Estava tão louco que, nem é preciso dizer que, não conseguia meditar. Então decidi frequentar essas aulas para ver se a tempestade em mim poderia acalmar. Não começou bem. Eu não queria visitar lugares tristes.”

Quem entre nós não consegue se identificar com essas palavras? Há um única coisa no trabalho que poderia ser tão ruim a ponto de nos torturamos sobre isso por dias, semanas ou até anos? O participante continuou descrevendo como seu coração se abriu durante uma meditação na aula, e a raiva “se derreteu”. Pensando sobre isso, ele disse:

“A melhor parte é que ainda tenho os mesmos problemas no trabalho, a mesma situação desconfortável, e o mesmo colega de trabalho irritante, mas agora não há sentimentos anexados. Tenho pensado sobre as mesmas coisas que disparavam minha raiva e frustração e… Não consigo sentir raiva.”

Como criaturas sencientes, o sofrimento é uma parte inescapável de nossa realidade, e quanto mais cedo pudermos desenvolver uma relação saudável com ele, melhor estaremos. O primeiro passo é aprender como estar com nossa dor e sofrimento, sem resistência e sem ceder ao impulso de buscar alívio imediato. Para desfazer nossos velhos hábitos emocionais, precisamos fazer muitas coisas: uma é aprender a habilidade de simplesmente observar nossas experiências e estar com elas assim que se surgem — precisamos de auto-consciência em relação ao nosso sofrimento.

Outra técnica, especialmente para aqueles que se sentem menos inclinados a sentar-se silenciosamente em meditação, é aprender a distinguir entre a linguagem da “observação” e a do “julgamento”, em nossos pensamentos. Afirmações de observação se referem a fatos, enquanto afirmações de julgamento se referem às nossas interpretações desses fatos.

Pegue o exemplo de passar por uma revista de segurança no aeroporto. A fila que você escolheu de repente fica mais devagar, e você começa a ficar impaciente. Por causa disso, pode começar a pensar: “Sempre escolho a fila errada!”, “por que os agentes de repente ficaram tão lentos depois que entrei na fila?”, “esses agentes não dão a mínima se as pessoas perdem o vôo”, “nada nunda dá certo para mim.”

Se examiná-las cuidadosamente, nenhuma dessas frases se refere a fatos. São preconceitos, suposições e generalizações cheias de emoção — nossa reação ao que está acontecendo, que simplesmente é: houve uma redução de velocidade no processo de revista. Isso é tudo.

Precisamos desafiar nosso pensamento julgador e outros padrões habituais mentais, especialmente o conceito sobre nós mesmos (“nada nunca dá certo para mim”). Apesar de todas as evidências contrárias da psicologia, neurociência e de nossa experiência pessoal, a maioria de nós continua segurando com força uma representação estática de si mesmo. Cada um de nós internalizou — a partir de nossa experiência cultural, social e de infância — uma representação particular de nós mesmo, um conceito de si que exerce uma influência poderosa em nosso dia-a-dia, porque afeta como percebemos e vivenciamos nós mesmo e o mundo ao redor.

Não há nada de errado em ter um conceito de si; o problema é que a maioria de nós falha em apreciá-lo pelo que é: um conceito, uma construção de nossa mente, desenvolvida através de nossa experiência. Acreditamos na história que nós mesmos criamos, e confundimos o conteúdo de nossos pensamentos com a realidade. Quando nos pegarmos permitindo o habitual auto-julgamento negativo — “não sou bom”, “ninguém me ama”, “não mereço ser feliz” … — ali mesmo, precisamos trazer a voz questionadora que diz: “Espere aí! Esses são apenas meus pensamentos, e não eu.”

Em um livro notável, David Kelley, o fundador da IDEO e do Hasso Plattner Institute of Design, da Universidade de Stanford, fala sobre como um rígido conceito sobre si (nesse caso, “não sou criativo”) geralmente é o principal obstáculo impedindo-nos de expressar nossa criatividade natural. David e seu irmão co-autor, Tom Kelley, recontam histórias inspiradoras sobre como as pessoas — ao soltar essa amarra mental fixa — dentro de um ambiente que encoraja a expressão sem medo, vêem seu lado artístico e criativo surgir praticamente sem esforço. Um fator-chave é o que David evocativamente chama de confiança criativa, um conceito sobre si que define a criatividade como uma habilidade humana inata em todos nós.

Sobre a compaixão, também há um tipo de confiança sem medo que podemos usar ao saber que essa capacidade já está em nós. Isso pode ajudar a atravessarmos as dúvidas e medos que geralmente bloqueiam a expressão de nosso lado mais bondoso.

Cultivo do auto-perdão

Para sermos realmente bondosos e compassivos conosco, precisamos examinar o quanto nos aceitamos e perdoamos. Quando temos sentimentos de ressentimento ou inimizade em relação a alguém, não podemos gerar compaixão e preocupação genuínas por essa pessoa. O mesmo vale para nós. E assim como a compreensão faz com que perdoemos os outros, compreender nossos pensamentos e ações no contexto da condição humana também pode levar ao auto-perdão.

Somos apenas humanos. Estamos fazendo o melhor que podemos. Precisamos da auto-compreensão e auto-perdão que fluem a partir daí. Marshall Rosenberg, o fundador da “Comunicação não violenta” (CNV), teve o seguinte insight: “Um importante aspecto da auto-compaixão é ser capaz de, com empatia, abordar as duas partes de nós mesmos: a parte que se arrepende de uma ação passada e o eu que cometeu a ação em primeiro lugar.”

Quando nos julgamos rudemente e nos recusamos a nos perdoar por algo que fizemos, essencialmente estamos atacando a parte de nós que cometeu o ato — é “parte” de nós no sentido de que havia razões para termos feito algo que, de modo consciente ou inconsciente, significava algo para nós. Nossa mente julgadora, que odeia a si mesma, iria condenar os motivos “ruins”, mas na verdade são apenas motivos humanos.

Ou então, nossa estratégia pode ser tentar amputar essa parte de nós, junto com seus motivos, negando que existam (“simplesmente, não vou pensar sobre isso”, ou “não sou o tipo de pessoa que faz essas coisas”). De qualquer modo, estamos em guerra com um parte de nós mesmos, desconectados dela, e não há esperança de compreensão ou reconciliação enquanto a guerra durar. Sem compreender nosso eu (inteiro), não podemos aceitar nosso eu (inteiro), e sem compreender e aceitar, não podemos aprender com nossos erros.

Pode ser útil pensar sobre isso em termos de uma outra pessoa: no meio de uma briga com alguém ou, ao se recusar a aceitar essa pessoa, é seguro dizer que não estamos aprendendo nada com ela. Obviamente, quando não aprendemos com nossos erros, tendemos a repeti-los, e a batalha com nós mesmos continua.

Note que, do mesmo modo quando falamos com outras pessoas, o tom é muito importante quando falamos com nós mesmos. Podemos gritar: “Como você pode fazer isso?!”, que tem a implicação: “seu monstro!”. Ou podemos gentilmente nos perguntar: “Hmmm, vamos ver, como você acabou fazendo isso?”, com a implicação: “que bagunça. Vamos ver como isso aconteceu para que — no futuro, tomara — não aconteça de novo; e vou ajudá-lo a limpar tudo”.

No treinamento do cultivo da compaixão, usamos exercícios específicos focados na auto-aceitação e auto-perdão. Eles nos ajudam a explorar as possíveis necessidades ou motivos subjacentes em algo que fizemos, e a usar essa compreensão para desarmar nossa reação auto-condenatória.

Uma vez que tocamos a necessidade subjacente, podemos ter diversos sentimentos — tristeza, frustração, arrependimento, desapontamento, desesperança etc. Esses sentimentos, que contém inerentemente mais aceitação  (“é triste” e “aconteceu”) ajudam a nos distanciarmos da culpa, auto-recriminação e julgamento negativo, sentimentos que travam a auto-aceitação (“como pude permitir que tal coisa acontecesse?”, “não consigo me tolerar por permitir que isso tenha acontecido” etc).

Através da compreensão e aceitação, geramos empatia por nós mesmos, não apenas pelo erro que cometemos (“OK, eu vejo como pude fazer aquilo”), mas também pela maneira dolorosa que reagimos (um perigo de aprender essas técnicas é que podemos usá-las contra nós mesmos, sendo rudes aos nos julgarmos incompetentes com essas habilidades!). Na linguagem da comunicação não violenta, esse processo de se conectar com as necessidades não satisfeitas é chamada de lamentação (ou luto). Esse luto nos permite se arrepender e isso, diz Rosenberg, “nos ajuda a aprender com o que cometemos, sem acusar ou odiar a nós mesmos”.

Exercício: perdoar a nós mesmos

Em nosso treinamento de compaixão, guiamos os participantes através de uma meditação para ajudar a produzir auto-perdão genuíno:

Para essa meditação guiada, ajuste sua posição ao sentar-se para que se sinta confortável e relaxado. Respire profundamente três ou quatro vezes, trazendo cada uma até o abdômen e, então, gentilmente, soltando. Pause por 20 ou 30 segundos em silêncio.

Agora pense sobre uma ocasião em que você fez alguma coisa que não queria e, como resultado, se condenou por isso. Talvez você tenha gritado com alguém que ama e depois se sentiu mal por isso. Ou pode ser algo que afetou apenas você, por exemplo gastar muito em algum produto e, depois, se sentir culpado e envergonhado. Lembrar os detalhes do incidente não é importante, a menos que ajudem a evocar a reação emocional que sentiu. O que é importante é a recordação de como você se engajou em auto-julgamento negativo. Silenciosamente permaneça com essa reflexão.

Então, pergunte-se: "Por que reagi de modo tão agressivo?", "qual era a necessidade frustrada que eu estava tentando compensar quando fiz isso?". Quando você explodiu, podia ser que precisava de respeito e se sentiu desrespeitado pela outra pessoa. Talvez você precisasse ser ouvido e sentiu que isso não estava acontecendo. Permaneça com essas reflexões por um tempo.

Agora reconheça que, embora o que você tenha cometido (por exemplo, usar linguagem abusiva) não tenha sido hábil, a necessidade subjacente que motivou sua ação era legítima. No caso de gastar demais e se sentir envergonhado, embora o que tenha feito seja inábil, aqui também havia uma necessidade subjacente -- talvez você estivesse se sentindo impotente e para baixo, e precisasse de um estímulo. Com auto-consciência, permita-se vivenciar sentimentos como tristeza, desapontamento e remorso, em vez de culpa ou vergonha. Pause aqui junto a esses sentimentos.

Ao tocar a necessidade subjacente que provocou a ação que trouxe o auto-julgamento negativo, permaneça com ela um tempo.

Agora, expirando devagar e completamente, solte qualquer tensão no corpo, solte qualquer aperto na mente e, refletindo sobre seus pensamentos auto-condenatórios prévios, silenciosamente diga a si mesmo: "Eu posso soltar isso. Vou soltar isso."

Finalmente, imagine que você se sente livre e expansivo no peito e, então, expire completamente algumas vezes mais.

Auto-aceitação

Infelizmente, para a maioria das pessoas em nossa cultura moderna, o sentimento de ser totalmente aceito como somos, “com verrugas e tudo mais”, é raro, se não for completamente ilusório. Se tivermos sorte, podemos ter alguém em nossa vida com quem nos sentimos, agora ou no passado, totalmente à vontade. Pode ser uma avó, um professor predileto na escola, um mentor espiritual, algum de nossos pais ou ambos (se realmente tivermos sorte), alguém que nos aceite incondicionalmente. Tal pessoa nos faz sentir que sua consideração e afeição por nós não depende daquilo que alcançamos na vida ou algo que fizemos por ela; em vez disso, sentimos que ela atinge diretamente nosso próprio ser.

Uma tradição espiritual também pode fornecer um sentimento de aceitação incondicional. Para mim, a visualização do Buda da compaixão, com seus mil braços e mil olhos cuidando de incontáveis seres, é uma poderosa fonte de conforto. O único requisito que preciso satisfazer para merecer seu cuidado, preocupação e compaixão é ser uma criatura senciente, nada mais. De fato, no budismo, um dos nomes de Buda significa “um amigo amável até com um estranho”, porque sua compaixão não depende de nenhum histórico de relacionamento pessoal. O simples fato de ser já basta.

Reconhecendo o poder dessa atitude, o psiquiatra britânico Paul Gilbert, desenvolveu uma prática chamada desenvolvendo uma imagem compassiva, adaptada a partir da meditação tibetana no Buda da compaixão. Gilbert, que trabalha com pessoas que sofrem de vergonha e auto-crítica excessivas, relaciona esses problemas à formação de uma sistema de auto-proteção, para reação a ameaças, que não é construtivo — ou “mal adaptado”, em linguagem científica. Segundo Gilbert, essas pessoas de algum modo adquiriram um tipo de regulação emocional que não utiliza o sistema do cérebro responsável por cuidar com carinho. O objetivo de sua terapia é ensiná-las como ativar esse sistema e direcioná-lo para elas mesmas.

No TCC, também usamos uma prática com uma imagem de compaixão. O coração dessa técnica é cultivarmos uma imagem à qual podemos atribuir qualidades como amor, compaixão, sabedoria, prontidão, que seja confiável etc. Precisa ser uma imagem à qual você sinta uma profunda conexão pessoal. Pode ser a de uma pessoa sábia que você admire e respeite; pode ser até a imagem de um animal de estimação que ama ou amou você incondicionalmente e que, para você, corporifica essas qualidades; pode ser a imagem de uma luz em seu coração, ou a imagem de um oceano azul expansivo e profundo; pode ser uma árvore firmemente enraizada com ampla folhagem; ou se você for uma pessoa religiosa, pode ser um símbolo significativo.

Qualquer que seja a imagem que escolhermos, praticamos evocando-a em uma sessão formal sentados. Quanto mais prontamente formos capazes de evocá-la, mais forte será nosso senso de que ela está ali para nós, não apenas sentados meditando, mas no dia-a-dia.

Exercício: aceitar a nós mesmos

Novamente, respire profundamente de três a cinco vezes, trazendo cada uma até o abdômen e, então, gentilmente soltando. Pause por um tempo, 20 a 30 segundos, em silêncio.

Agora traga à mente uma imagem de compaixão que para você represente amor, cuidado, sabedoria e força. Espere até que esse pensamento de compaixão permeie sua mente. Não é necessária uma imagem foto-realista de alguém, mas sim sentir sua presença.

Agora imagine que na presença dessa imagem você se sente completamente você mesmo: nada mais, nada menos. Não é preciso fingir, não é preciso ser alguém que você não é. Não há julgamento ou crítica; em vez disso, o que você encontra é simplesmente aceitação calorosa e gentil. Permaneça nesse sentimento de receber aceitação incondicional. Como você se sente? Sente uma desaceleração no coração, um alívio da tensão em alguma parte do corpo, um sentimento de soltar?

Mantenha essa imagem de compaixão ao respirar. Então, ao inspirar, visualize raios de luz calorosos surgindo da imagem e tocando todas as partes de seu corpo. Todos esses raios de luz tocam você, imagine que eles trazem alívio, confortam seu sofrimento e trazem força e sabedoria. Permaneça com esse pensamento por um tempo em silêncio.

Repita essa sequência de imaginar raios de luz saindo da imagem e te tocando, inspirando sentimentos de segurança, serenidade e conforto total em você.

Se sentir que essa prática com imagem não é para você, tente um método alternativo que John Makransky, um colega da área de estudos budistas, chama de momentos benfeitores em um programa que ele desenvolveu, chamado de “Treinamento da compaixão inata”. Momentos benfeitores são os instantes de nossa vida em que nos sentimos vistos, escutados e reconhecidos por alguém que nos mostra consideração e afeição genuínas. Pode ser uma expressão de preocupação vinda de alguém em um momento difícil de nossas vidas, um sentimento de “está tudo bem com o mundo” que sentimentos na presença de um velho amigo, ou simplesmente um abraço caloroso. Pode ser um tempo que passamos com alguém que adorávamos quando criança.

O que define esses momentos é que eles nos fazem sentir que importamos; eles nos elevam, nos fazem sentir honrados e vivos. “Benfeitores aqui significa”, escreve Makransky, “alguém que nos enviou um desejo de amor, o simples desejo de que estejamos bem e felizes”. Ele sublinha o ponto de que os benfeitores não precisam ser infalíveis. Na meditação, trazemos à mente a imagem de nosso benfeitor e imaginamos que ela nos envia sua aspiração por nosso bem-estar, felicidade e alegria mais profundas.

Se usamos a técnica da imagem de compaixão ou a abordagem dos momentos benfeitores, a chave é evocar o sentimento de aceitação incondicional na presença de alguém ou algo que nos faz sentir confortáveis e seguros. Com a prática, nós gradualmente expandimos nosso círculo de benfeitores.

Auto-gentileza

Muitos de nós nos sentimos menos pacientes conosco do que com os outros, perdoamos menos nossos próprios erros, e somos menos capazes de nos ver de modo positivo. Com a prática de auto-compaixão, aprendemos a mudar isso ao estender nossa gentileza e preocupação naturais a nós mesmos. Abrimos o círculo de compaixão que criamos e permitimos que nós mesmos entremos.

Uma prática de visualização que ajuda muitas pessoas a evocar seu sentimento de preocupação e cuidado gentil naturais em relação a elas mesmas é imaginar-se como uma criança e, então, permitir que o sentimento natural por ela se desdobre. Podemos usar uma foto, se isso ajudar a termos essa perspectiva com nós mesmos. Nas aulas do TCC usamos essa meditação:

Exercício: auto-gentileza

Imagine-se como uma pequena criança, um bebê, talvez livre mas ainda vulnerável, andando pra lá e pra cá e derrubando coisas pelo caminho. Ou, se for mais útil, imagine uma idade da infância do qual você se recorde. Você não se sente instintivamente protetor em relação a essa criança? Em vez de julgamento negativo, crítica e repreensão, você não sente carinho e um impulso de cuidar?

Deixe esses sentimentos de carinho e cuidado pelo seu eu-criança permear seu coração e, então, silenciosamente repita as frases:

Que você esteja livre da dor e do sofrimento...
Que você esteja livre do medo e da ansiedade...
Que você vivencie paz e alegria...

Uma colega que é uma instrutora-sênior do treinamento de compaixão em Stanford, Margaret Cullen, compartilhou comigo uma história comovente de sua aula. Em um dos diversos cursos de compaixão que Margaret ministrou a grupos de apoio para pessoas com câncer na Bay Area, havia um homem que se matriculou junto com a esposa, uma paciente com câncer. Quando o curso de oito semanas começou, ela estava usando um acessório de plástico bem intimidador no peito — seu câncer havia se espalhado para os ossos. O casal estava na faixa dos 70 anos e tinha bastante afeição um pelo outro.

Ao final do curso, a esposa parou de vir pois estava doente demais para sair de casa. Contudo, o marido continuou a participar porque ele estava achando as aulas úteis em sua tarefa diária de cuidar da esposa.

Na semana anterior, o grupo tinha acabado de terminar os exercícios de compaixão, que incluíam essa meditação guiada sobre a criança. Durante a abertura da aula, em que os participantes compartilham suas experiências da semana, o homem disse que retrocedeu para encontrar um senso de si mesmo como uma criança; e, assim, conseguiu recuperar o sentimento de que ele era amável. Ele tinha uma foto de si nos braços dos pais e se sentiu feliz e de coração aberto para si mesmo como um bebê.

Ele avançou diversos anos depois para uma memória de um Natal em que estava feliz. A família estava em Minnesota, havia neve, e ele compartilhou diversos detalhes sobre a ocasião que o faziam sentir-se bem. Depois disso, ele reconheceu coisas difíceis que surgiram em sua vida e o transformaram no homem que é hoje. Ele sentiu dor, e viu como se fechou por causa disso e, então, teve compaixão pelo homem.

Ele compreendeu porque estava protegendo a si mesmo. Então decidiu que não precisava mais viver desse jeito, defensivo e fechado. Pensou: “O que de ruim pode acontecer?”. Depois desse insight, esse idoso de modos bem estritos decidiu ir ao mundo e abrir seu coração a quem quer que encontrasse.

Sobre o câncer de sua esposa, ele disse: “Nunca tive problema em sentir compaixão pelos outros, mas por mim mesmo, aí é outra história”. O convite para que se visualizasse como uma criança permitiu esse jorro de compaixão. Ele sentiu que um peso foi tirado de suas costas: sentiu que tinha energia e era livre.

Como nosso objetivo é mudar o próprio modo como nos relacionamos conosco — como nos percebemos, nossas atitudes conosco, como lidamos com nossas necessidades e problemas, e como nos sentimos sobre nós mesmos — curtas práticas de meditação sentado não serão suficientes. Como no cultivo de nossa intenção, atenção e gentileza-amorosa, precisamos trazer nossas práticas transformadoras para o cotidiano.

No TCC, falamos de “práticas informais”, quando usamos situações do dia-a-dia como ocasiões para aplicar as práticas transformadoras. Recomendamos três práticas informais de auto-compaixão:

  1. Tente estar mais consciente de quaisquer pensamentos, conversa interna negativa e auto-crítica.
  2. Perceba que esses são apenas pensamentos, construções e interpretações; são representações e não fatos.
  3. Explore maneiras de como refrasear julgamentos negativos em avaliações mais compassivas.

Digamos que você fale algo que se arrependa, disparando a conversa interna inútil (“Idiota!”, “como pude fazer isso de novo?”, “sou um perdedor”). Quando isso acontecer, o primeiro passo é notar o que está acontecendo — você escorregou em um auto-julgamento negativo. A prática da auto-consciência ajuda nisso.

Depois, você pode ver que esses rótulos que está atirando em si mesmo, são na verdade apenas seus pensamentos, construídos a partir da frustração e desapontamento consigo? Finalmente, você consegue refrasear esses pensamentos de forma mais construtiva? Em vez de punir-se com “eu não presto”, “sou um idiota”, “como alguém pode me amar?”, você poderia refrasear isso em “acalme-se”, “sinto dor”, “preciso de confiança” etc. Ao expressar a verdade dessa maneira, seu coração vai reconhecer. Refrasear a linguagem do auto-julgamento em auto-gentileza, especialmente se fizer isso regularmente, pode ser uma fonte poderosa de transformação pessoal.

Então, através dessas reflexões e exercícios, podemos aprender a ter mais aceitação, perdão e cuidado conosco, e a sermos menos negativos e julgadores em relação ao que percebemos como falhas e infortúnios — ou seja, a sermos mais auto-compassivos. No entanto, para ser realmente auto-compassivo, precisamos também de uma relação saudável com nossas necessidades legítimas e nossas aspirações básicas como humanos. Precisamos de uma apreciação em um nível físico de nossa humanidade básica, nossa necessidade de amor e felicidade. Isso, então, é o foco da segunda parte da prática de auto-compaixão.

Gentileza amorosa para nós mesmos

Como fizemos com a compaixão no capítulo anterior, invertendo a direção — dos outros para nós mesmos — faremos isso com a gentileza-amorosa também. Como você se lembra, gentileza-amorosa é o lado do cuidado que se manifesta como desejar felicidade a alguém. Ela é calorosa, cuidadosa, gentil e conectada, e espera sucesso e alegria. A gentileza amorosa também é incondicional, não julga e é aberta. Gentileza amorosa para nós mesmos deve ser a coisa mais natural, uma expressão de nossa disposição fundamental: o desejo de ser feliz e evitar o sofrimento.

Uma complicação é que muitas pessoas acreditam que focar-se em si mesmo é inerentemente egoísta ou narcisista. A verdade é que, acima de tudo, a gentileza amorosa por nós mesmos nos torna mais conscientes e gera mais empatia em relação aos sentimentos e necessidades dos outros. Nutrir e aliviar a nós mesmos rejuvenesce, pois passamos a ter mais energia benevolente para se relacionar com os outros e o mundo ao redor. Quando sentimos nossos corações cheios, também tendemos a ser mais generosos com os outros. Quando damos a nós mesmos a gentileza amorosa que precisamos, sentimos que há o suficiente disso para andarmos no mundo, e que podemos dar mais.

Uma maneira de começar é clarificar nossas aspirações mais profundas. Podemos fazer isso ao meditarmos sentados, manter um diário, discussões ou alguma combinação de tudo isso. Quando houver um momento calmo no dia, podemos nos perguntar, do mesmo modo como fizemos ao definir nossa intenção e motivação: “No centro do meu coração, o que realmente quero na vida?”. Se repetirmos esse processo ao longo do tempo, podemos descobrir que os valores que cultivamos podem de fato se tornar os objetivos de nossas aspirações. Reconhecemos que, lá no fundo, aspiramos à felicidade genuína — ao sentido, completude, paz interior, satisfação — e que essa aspiração é um aspecto fundamental de nosso ser. Quando honramos nosso desejo por felicidade, isso se torna um recurso interno magnífico. E como esse desejo vem do núcleo de nossa humanidade, ao abraçá-lo, abraçamos todos que compartilham disso, que basicamente são: todo mundo.

Outra maneira de abordar a gentileza amorosa para nós mesmos é perceber as coisas boas em nossas vidas e se regozijar com isso. Pode ser algo que fizemos ou algo sobre nós com que nos sentimos bem. Pode ser nossa boa fortuna de ter um parceiro amoroso, uma família, uma comunidade. Pode ser simplesmente nosso entusiasmo pela vida. Se nada específico vir à mente, podemos nos regozijar com a capacidade natural para empatia e bondade que possuímos como seres humanos.

Ouvi o Dalai Lama uma vez afirmar: “Celebro minha vida como um ser humano, no mínimo, pela simples habilidade que ela me dá de cantar louvores ao altruísmo”. Essa prática de contar nossa boa fortuna já foi provada como tendo benefícios importantes para a saúde. O desafio é evitar escorregar na auto-indulgência, que apenas infla nosso ego, e permanecer com um regozijo genuíno que é uma expressão da verdadeira gratidão.

Reabastecer nossa fonte interna

Entre os veteranos do centro de tratamento para estresse pós-traumático de Palo Alto, onde o TCC tem sido oferecido já há dois anos, havia um veterano da guerra do Vietnã. Ele achou o componente de auto-compaixão do curso tão valioso que, além de seguir as meditações de auto-compaixão durante as aulas, também arrumou oportunidades de fazer isso durante o dia, especialmente ao participar de outras atividades de grupo (incluindo o grupo de trauma).

Como ele sofria de insônia devido à sua condição, começou a usar o tempo de noite para meditações de auto-compaixão também. Ele disse que compreendeu que seu abuso de drogas por décadas aconteceu por ele não saber como acessar esse sentimento de ver a si mesmo e suas dolorosas experiências de guerra de modo compassivo. Fiquei realmente comovido quando ele falou sobre como se sentiu ao ter auto-compaixão e sobre a vulnerabilidade e fragilidade subjacentes ao seu uso de substâncias.

Uma mãe em um workshop de TCC falou sobre como, através da auto-compaixão, viu que estava ausente de uma relação consigo mesmo por muito tempo. Ela estava tão focado em tomar conta de todos os outros que, nesse processo, se esqueceu dos próprios sentimentos e necessidades. Paradoxalmente, ela compreendeu: negligenciar a si mesma fez com que estivesse menos disponível emocionalmente para sua família. As práticas de auto-compaixão ajudaram-na a reconectá-la com ela mesma. Agora ela quer achar um modo de compartilhar esse insight com suas crianças, para que elas também aprendam a auto-compaixão.

Priorizar a auto-compaixão é como o anúncio durante a decolagem de vôos: “se estiver com crianças, garanta que sua própria máscara de oxigênio esteja afixada antes de ajudar seus filhos”. A força de caráter, coragem do coração e profundidade de sabedoria necessárias para estarmos disponíveis para os outros dependem de nossa compaixão por nós mesmos.

Sobre auto-estima e auto-aceitação, leia também:

Imagem no topo: Unsplash, Pixabay/CC0.

Empatia, altruísmo e compaixão

Emocionar-se com o sofrimento do outro, sofrer por ele estar sofrendo, ficar alegre quando ele está alegre e triste quando ele está aflito, demonstram ressonância emocional.

Por outro lado, distinguir as causas imediatas ou duradouras, superficiais ou profundas dos sofrimento do outro e ter a determinação de solucioná-los vêm da sabedoria e da compaixão “cognitiva”. Esta última está ligada à compreensão das causas do sofrimento. Com isso, sua dimensão é mais ampla e seus efeitos maiores.

Esses dois aspectos do altruísmo, emocional e cognitivo, são complementares e não constituem duas atitudes mentais separadas e estanques. Em algumas pessoas, num primeiro momento, o altruísmo ganha a forma de uma experiência emocional mais ou menos forte, suscetível de transformar-se em seguida em altruísmo cognitivo no momento em que a pessoa começa a analisar as causas do sofrimento. No entanto, o altruísmo permanece restrito se for limitado unicamente ao componente emocional.

Matthieu Ricard, em “A revolução do altruísmo”, parte 1.

Dalai Lama: chegou a hora de uma espiritualidade e ética que estejam além da religião

Trecho do livro "Beyond Religion" (2011), em que o Dalai Lama explica sua proposta de ética secular -- que basicamente é a mesma aqui de nossa Ação para Felicidade, movimento do qual ele é o patrono.

… Apesar de avanços tremendos em tantas áreas, hoje há ainda grande sofrimento, e a humanidade continua a enfrentar dificuldades e problemas. Enquanto nas regiões mais prósperas do mundo as pessoas desfrutam de estilos de vida com consumo refinado, ainda há incontáveis milhões de pessoas cujas necessidades básicas não são atendidas. Com o fim da Guerra Fria, a ameaça da destruição nuclear global recuou, mas muitos continuam a enfrentar o sofrimento e tragédia de conflitos armados. Em muitas áreas também, pessoas têm que lidar com problemas ambientais que ameaçam seu sustento ou algo pior. Ao mesmo tempo, muitos outros estão lutando para sobreviver diante da desigualdade, corrupção e injustiça.

Esses problemas não se limitam aos países em desenvolvimento. Nos países mais ricos também há muitas dificuldades, incluindo problemas sociais amplamente disseminados: alcoolismo, abuso de drogas, violência doméstica, desagregação familiar. As pessoas estão preocupadas com seus filhos, sua educação e o que o mundo reserva para eles.

Agora também temos que reconhecer a possibilidade de que nós humanos estamos danificando o planeta de um modo que não terá mais volta, uma ameaça que cria ainda mais medo. E todas as pressões da vida moderna trazem junto estresse, ansiedade, depressão e cada vez mais solidão. Como resultado, em todos lugares que vou, as pessoas estão reclamando. Mesmo eu me pego reclamando de vez em quando!

É bem óbvio que alguma coisa está perigosamente faltando no modo como nós humanos estamos fazendo as coisas. Mas o que é que está faltando? O problema fundamental, acredito, é que em todos os níveis estamos dando atenção demais para os aspectos externos e materiais da vida, enquanto negligenciamos a ética moral e os valores internos.

Por valores internos me refiro às qualidades que todos apreciamos nos outros, e sobre os quais todos temos um instinto natural, herdado em nossa natureza biológica, como animais que sobrevivem e prosperam somente em um ambiente de cuidado com o outro, afeição e bom coração — em uma única palavra: compaixão.

A essência da compaixão é um desejo de aleviar o sofrimento dos outros e promover seu bem-estar. Esse é o princípio espiritual à partir do qual todos os outros valores internos positivos surgem. Todos nós apreciamos nos outros as qualidades internas da gentileza, paciência, tolerância, perdão e generosidade; e do mesmo modo todos temos aversão a expressões de ganância, maldade, ódio e intolerância. Então, a promoção ativa das qualidades internas positivas do coração humano, que surgem de nossa disposição interna em direção à compaixão, e o aprendizado sobre como combater nossas tendências mais destrutivas serão apreciados por todos. E os primeiros beneficiários de tal fortalecimento dos valores internos serão, sem dúvida, nós mesmos. Ignoramos nossas vidas interiores sob nosso próprio risco, e muitos dos maiores problemas que temos hoje no mundo são resultado de tal negligência.

Então, o que faremos? Para onde devemos nos voltar em busca de ajuda? A ciência, apesar de todos os benefícios que trouxe ao nosso mundo externo, ainda não forneceu o embasamento científico para o desenvolvimento das fundações da integridade pessoal — os valores humanos internos básicos que apreciamos nos outros e que, se cultivássemos em nós mesmos, seria ótimo.

Talvez precisemos buscar valores internos na religião, como as pessoas têm feito por milênios? Certamente a religião ajudou milhões de pessoas no passado, ajuda milhões hoje e continuará a ajudar milhões no futuro. Mas, apesar de todos os benefícios ao oferecer orientação moral e significado na vida, no mundo secular atual a religião sozinha não é mais algo adequado como uma base para a ética. Uma razão para isso é que muitas pessoas não mais seguem uma religião em particular.

Outro motivo é que, com as pessoas do mundo se tornando cada vez mais intimamente interconectadas em uma era de globalização e sociedades multiculturais, a ética baseada em uma religião específica teria apelo apenas para alguns de nós; ela não seria importante para todos. No passado, quando as pessoas viviam em relativo isolamento umas das outras — como nós tibetanos vivemos bem felizes por muitos séculos, atrás de nossa muralha de montanhas — o fato de alguns grupos terem uma ética baseada na religião não apresentava nenhuma dificuldade. Hoje, contudo, qualquer resposta para o problema de nossa negligência com os valores humanos, que se baseie em uma religião, jamais será universal, portanto será inadequada.

O que precisamos hoje é uma abordagem para a ética que não dependa da religião e que possa ser igualmente aceitável por crentes e descrentes: uma ética secular.

Essa declaração pode parecer estranha vinda de alguém que desde muito cedo vive como um monge em mantos. No entanto, não vejo nenhuma contradição aqui. Minha fé me força a me esforçar pelo bem e benefício de todos os seres sencientes; e estender-me além de minha própria tradição, em direção às pessoas de outras religiões ou de nenhuma, está totalmente de acordo com isso.

Estou confiante que é tanto possível quanto valioso tentar uma nova abordagem secular para a ética universal. Minha confiança vem da convicção de que todos nós seres humanos basicamente temos uma inclinação ou disposição para o que percebemos como bom. O que quer que façamos, fazemos porque pensamos que haverá algum benefício. Ao mesmo tempo, todos apreciamos a bondade dos outros. Somos todos, por natureza, orientados em direção aos valores humanos básicos do amor e compaixão. Todos preferimos o amor dos outros do que seu ódio. Todos preferimos a generosidade dos outros do que sua mesquinharia. E quem entre nós não prefere tolerância, respeito e perdão por nossas falhas do que intolerância, desrespeito e ressentimento?

fbNessa visão, tenho a firme opinião de que temos ao nosso alcance um caminho e um modo para fundamentar valores internos que não contradizem nenhuma tradição religiosa e, ainda assim, de modo crucial, não dependem de religião.

Devo deixar claro que minha intenção não é ditar valores morais. Fazer isso não teria nenhum benefício. Tentar impor princípios morais à partir de fora, impô-los com ordens, jamais será eficaz. Em vez disso, convoco cada um de nós para chegarmos ao nosso próprio entendimento sobre a importância dos valores internos. Porque são esses valores que são a fonte tanto de um mundo eticamente harmonioso, quanto do nível individual da paz de espírito, confiança e felicidade que todos procuramos.

Obviamente que todos as religiões principais do mundo, com sua ênfase no amor, compaixão, paciência, tolerância e perdão, podem e, de fato, promovem valores humanos. Mas a realidade do mundo hoje é que basear a ética na religião não é mais adequado. É por isso que acredito que chegou a hora de encontrarmos uma maneira de pensar sobre espiritualidade e ética que esteja além da religião.

… a mudança efetiva da sociedade só virá através do esforço dos indivíduos: uma parte-chave de nossa estratégia para lidar com esses problemas deve ser a educação da próxima geração. … tenho esperança de que chegará o tempo em que possamos tomar como garantido o fato de que as crianças aprenderão, como parte do currículo escolar, sobre o caráter indispensável de valores como amor, compaixão, justiça e perdão.

junte-se… Para criarmos esse mundo melhor, portanto, que todos nós — idosos e jovens, não como membros deste ou daquele país, desta ou daquela fé, mas simplesmente como membros desta grande família humana de sete bilhões de pessoas — nos esforçemos juntos com visão, coragem e otimismo. Este é meu humilde apelo.

Dentro da escala temporal do cosmos, a vida humana não é mais que um minúsculo piscar. Cada um de nós é um visitante neste planeta, um convidado, que tem um tempo limitado para ficar. Que tolice maior haveria do que gastar esse curto tempo de modo solitário, infeliz e em conflito com nossos visitantes companheiros? Muito melhor, certamente, é usar nosso curto tempo buscando uma vida significativa, enriquecida pelo sentimento de conexão e serviço para os outros.

Até agora, do século 21 apenas uma década se foi; a maior parte ainda está por vir. É minha esperança que este seja um século de paz e de diálogo — um século em que uma humanidade mais cuidadosa, responsável e compassiva vai emergir. Esta também é minha prece.

Leia também:

dalai-lama-meditating2Dalai Lama ensina meditação sem crenças

Imagem no topo: Jan Michael Ihl, Flickr/CC.

Altruísmo entre animais (como o Homo sapiens)

O vídeo acima é bastante surpreendente em diversos aspectos. E há muitos outros hits da internet nessa categoria: a cadela que adotou um bebê humano abandonado, golfinhos protegendo nadadores desavisados contra tubarões, o gorila que salva o corvo se afogando etc…

Uma reação bem comum a esses vídeos é a frase: “esses animais são melhores que humanos”, ou “se pelo menos as pessoas fossem assim…”. Pode parecer algo positivo e esperançoso, mas é uma maneira de ver bastante pessimista (com a desvantagem de não ser exatamente realista). Nessa visão, estamos isolados e separados desse tipo de comportamento, como se fosse algo impossível para as pessoas.

Na verdade, o que esses vídeos exemplificam é exatamente o contrário: nós também somos animais! E os mesmos instintos de cooperação, altruísmo e compaixão que deram vantagens evolutivas a essas espécies estão em nós. Se soltarmos um pouco a competição exagerada, a suspeita paranóica sobre todos e o egoísmo crônico que de algum modo aprendemos — sem saber que isso pode ser desfeito — há um instinto de cooperação naturalmente presente: não precisa ser aprendido, já está aqui. Mas é preciso evitar cultivar aquilo que o obscurece: por exemplo, o ódio ou egoísmo — e isso sim precisa ser aprendido.

Diversos estudos científicos apontam para a presença natural desse instinto altruísta em humanos e animais.

Por exemplo, veja o vídeo abaixo, do Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology:

Nesse outro vídeo, Frans de Waal mostra exemplos e comenta sobre a “moralidade” de alguns animais:

 

O próprio Charles Darwin identificou diversos desses comportamentos e escreveu sobre a vantagem evolutiva que a cooperação dá às espécies, embora hoje em dia a maioria use a teoria da evolução para falar sobre “a lei do mais forte”, “cada um por si” etc, em uma justificativa sem base para a injustiça e a exploração alheia.

Da felicidade pessoal em direção à compaixão

O texto a seguir é um trecho do livro "A Force For Good", escrito por Daniel Goleman, sob a orientação do Dalai Lama.

— “Qual é a fonte da felicidade?”, um estudante da Universidade de Princeton perguntou ao Dalai Lama.

Olhando os estudantes em volta aguardando a resposta, o Dalai Lama parou alguns momentos e, então, provocou: “Dinheiro!”.

Esperou mais um pouco e: “Sexo!”.

Depois: “Boate!”.

Sua piada demoliu o auditório.

Então ele continuou, dizendo que quando vemos o mundo através de uma lente materialista, consideramos tais estímulos sensoriais como sendo fontes de satisfação ou alegria. Mas, acrescentou, focar-se apenas no prazer dos sentidos nos deixa eternamente insatisfeitos, porque tais prazeres duram pouco.

Quando encontrei o Dalai Lama na Itália para este livro, ele tinha acabado de ser convidado para uma conferência sobre a natureza da felicidade pelo lorde Richard Layard, a quem minha esposa e eu visitamos na semana seguinte em seu escritório na London School of Economics.

O objetivo da vida, Layard nos disse, deve ser criar o máximo possível de felicidade e o mínimo possível de sofrimento no mundo à nossa volta.

Layard e seus aliados buscaram lançar um movimento social baseado nessa ideia, para oferecer uma alternativa à predominante obsessão por enriquecimento financeiro. Eles querem disseminar uma visão melhor sobre o que é uma vida feliz e satisfatória.

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Richard Layard, co-fundador da Ação para Felicidade, com o líder tibetano.

Assim começou a Ação para Felicidade (Action for Happiness, no exterior), um movimento secular que engloba muitas das maneiras que a religião usa para dar às pessoas uma âncora ética e emocional — ensinando como se engajar na vida, com um propósito, tratando bem os outros — mas de modo a atrair também pessoas que não se interessam por religião. Como um sinal de sua aprovação, o Dalai Lama aceitou ser o “patrono” do movimento.

junte-seAo se juntar à Ação para Felicidade, as pessoas assumem o compromisso: “Tentarei criar mais felicidade e menos infelicidade no mundo ao redor”. Isso significa realizar ações que aumentam o próprio bem-estar, mas também criam mais felicidade nas vizinhanças, ambientes de trabalho, escolas e comunidades, diz Mark Williamson, diretor do movimento.

O número de membros da Ação para Felicidade chega às dezenas de milhares pelo mundo, e 60% estão em países bem longe da Inglaterra, mas “a magia está nos pequenos grupos cara-a-cara“, conta Williamson. O modelo parece um pouco com o dos alcóolicos anônimos, em que qualquer pessoa está qualificada para iniciar um grupo local, onde as pessoas se encontram regularmente em torno de um formato fixo.

Cada encontro começa com alguns minutos de atenção plena e expressões de gratidão, com o tópico da discussão sendo o coração da sessão. Os encontros terminam com as pessoas escolhendo alguma ação para realizar, por exemplo: ajudar alguém em dificuldade ou se conectar a uma pessoa solitária. Um grupo iniciou um Café da Felicidade, onde pessoas com objetivos similares se reunem para compartilhar ideias sobre como criar uma vizinhança mais feliz e que dê mais apoio.

Participantes do curso, em Londres.
Participantes do curso, em Londres.

Durante o curso “Explorar o que realmente importa”, o principal programa do movimento, grupos se encontram por oito semanas, com cada sessão focada em uma grande questão para discussão. Eles começam com a pergunta “o que realmente importa na vida?”, e depois “o que realmente nos faz feliz?” — seguidas por sessões sobre como lidar com adversidades, ter bons relacionamentos, se preocupar e cuidar dos outros, criar ambientes de trabalho e vizinhanças mais felizes. Eles terminam com: “Como criar um mundo mais feliz?”.

Essa progressão a partir do senso de sentido e felicidade pessoais, até a compaixão altruísta, geralmente leva as pessoas a encontrar maneiras de ajudar os outros. Por exemplo, Jasmine Hodge-Lake chegou à Ação para Felicidade devido à sua dor crônica. Problemas de saúde crônicos e profundos criaram uma mistura tóxica de sofrimento que levou sua vida para um beco sem saída.

Incapaz de trabalhar, e tendo estado em dor constante por mais de uma década, ela passava seus dias em desespero. Um curso para lidar com a dor, que não trouxe nenhum alívio, a fez sentir-se ainda mais impotente, lançando-a fundo na depressão. “No final, senti: não tenho mais esperança”, diz Jasmine. “Essa é a minha vida: uma não-vida”.

Para piorar, ela se sentia isolada. “Eu não queria ficar no meio de pessoas. Pensava que ninguém realmente se importava comigo”, lembra ela.

Por acaso, ela se deparou com o website do movimento, que inclui uma lista simples das “10 chaves para uma vida mais feliz” — uma delas, por exemplo, é se conectar mais a pessoas. Para Jasmine, essa lista trouxe a compreensão de que havia coisas práticas que ela podia fazer para se tornar mais feliz. Então, entrou no curso de oito semanas.

A primeira “lâmpada que acendeu” foi durante a reprodução de uma palestra de Jon Kabat-Zinn sobre atenção plena. Ela viu que poderia mudar sua relação com a dor: aceitá-la em vez de lutar contra. Essa mudança interna diminuiu sua aflição emocional, mesmo que a sensação física de dor tenha continuado.

Outra lâmpada brilhou durante a semana sobre o tema “O que faz um trabalho ser significativo e satisfatório?”. Jasmine, dando-se conta que havia perdido a paixão por praticamente tudo, decidiu trabalhar com outras pessoas sofrendo com dor crônica, para ver como ela poderia ajudá-los.

“Eu ainda estava bem deprimida, mas comecei a fazer mais coisas”, conta Jasmine. “Foi incrível como as ferramentas que a Ação para Felicidade me deu ajudaram. Descobri que havia coisas úteis que eu podia fazer. Comecei a ter esperança sobre o futuro”.

Com essa mudança interna, ela passou a pensar em como melhorar o apoio a pessoas que vivem com dor crônica. “Compreendi que precisamos de uma nova abordagem: uma que contenha mais esperança e que use algumas das ideias que aprendi na Ação para Felicidade”.

Jasmine hoje informalmente aconselha outras pessoas sofrendo com dor crônica sobre como elas podem ser ajudadas — e ela procura dar esperança a eles. Ela está no processo de se tornar uma “voz paciente” em um novo programa para aprimorar as diretrizes dos cuidados com pacientes no sistema médico britânico. E também está espalhando a ideia da Ação para Felicidade, passando o cartão das “10 chaves para uma vida mais feliz”, e encorajando as pessoas a se envolverem.

“Não estaria aqui agora sem a Ação para Felicidade e aquele curso”, afirma. “Ainda tenho dias ruins e a vida certamente não é perfeita. Mas isso me ajudou tanto! Agora estou tentando ser a mudança que gostaria de ver”.

Imagem no topo: Fountain Posters, Wikimedia Commons/CC.

Ativismo compassivo

O que o movimento Ação para Felicidade teria de interessante para pessoas que já seguem algum caminho espiritual?

Diversos textos neste site explicam o que queremos, mas de um ponto de vista secular. Por exemplo:

Ao nos apresentarmos, falamos em grande parte para pessoas sem nenhuma religião ou fé específicas.

No entanto, nosso secularismo não é uma oposição à religião, mas sim algo que também abraça pessoas com qualquer afiliação religiosa. Esta noção particular de secularismo costuma ser usada, por exemplo, pelo Dalai Lama ao se referir ao governo da Índia: é um governo secular no sentido de que respeita igualmente todo tipo de fé, incluindo a não-fé.

O Dalai Lama é o patrono de nosso movimento não exatamente por ser um mestre espiritual realizado, mas sim por estar entre os maiores promotores da ética secular e valores humanos de modo universal.

Então o que teríamos a oferecer para quem já segue um caminho espiritual?

Em termos de satisfação e bem-estar pessoais, provavelmente não temos nada a acrescentar. Mas nosso movimento não é sobre alcançar mais felicidade pessoal, e sim sobre importar-se com a felicidade dos outros (e isso, inevitavelmente, afeta positivamente a própria felicidade).

Então, para pessoas que seguem um caminho espiritual, a Ação para Felicidade também pode ser uma rica plataforma de ação compassiva no mundo: somos também um movimento humanitário. E, para pessoas que estão preocupadas com o bem-estar alheio ou o alívio de seu sofrimento, atuar ativamente nesse sentido, incluindo a possibilidade de diversas ações em conjunto, pode ser uma ótima maneira de realizar essas aspirações.

Fé e ciência

Obviamente que nosso movimento não pretende ser um substituto para o caminho espiritual de ninguém. A ideia é nos unirmos por um bem comum.

junte-sePor exemplo, outro possível ponto de interesse para praticantes espirituais é que o conhecimento baseado em pesquisas científicas que divulgamos pode atuar como um contraponto útil — ou até reforço — para a fé, já que muitas dessas pesquisas confirmam os insights que pessoas de fé vêm realizando há séculos — por exemplo, sobre os benefícios do altruísmo ou meditação.

Ética secular

Uma das características de muitos praticantes espirituais mais experientes é que eles passam a falar menos em termos de suas próprias doutrinas, e mais de um modo que seja compreensível e acessível para um número maior de pessoas.

E o Dalai Lama não é o único. Muitos desses líderes vêm chamando a atenção para a necessidade de se promover valores humanos — como solidariedade e compaixão — entre pessoas sem fé. A ideia é desfazer o mal-entendido de que esses valores estão ligados à religião.

Por exemplo, hoje em dia, se alguém chegar em uma roda de amigos descrentes e dizer que está tentando ser mais amoroso com o próximo, instantaneamente as outras pessoas vão imaginar que ela se converteu para alguma religião, encontrou um “guru” etc. Quando na verdade, amor ao próximo é um valor ético básico, independente de crenças.

O fato de que valores humanos como compaixão estão sendo rejeitados e descartados, por serem confundidos com religião, é um problema moderno com que diversas pessoas — incluindo muitos praticantes espirituais — se preocupam, já que isso contribui para uma sociedade menos humana. Não é uma questão de converter ninguém para um sistema religioso moral, mas sim de promover a ética secular, um conjunto de valores humanos totalmente independente de doutrinas espirituais.

Esse é um dos objetivos centrais da Ação para Felicidade, sendo portanto também uma área de atuação em que seguidores espirituais podem ter entusiasmado interesse.

(este texto se refere mais a uma visão pessoal do autor)

Imagem: Minette, Flickr/CC.

O caminho a partir da transformação pessoal até a mudança da sociedade

matthieu-ricard-1por Matthieu Ricard, pesquisador, ativista, facilitador na ponte entre ciência e meditação, e monge budista, autor de “A revolução do altruísmo”

A natureza humana é inerentemente egoísta ou altruísta?

Apesar da violência e conflitos que vemos constantemente na mídia, estudos mostram que a violência diminuiu continuamente nos últimos séculos. E nossa existência cotidiana também está preenchida de cooperação, amizade, afeição e cuidado com o outro.

Investigações científicas nos últimos 30 anos têm progressivamente modificado a distorcida visão de que a natureza humana é inteiramente motivada pelo egoísmo, uma crença que vinha dominando há muito tempo a psicologia ocidental e as teorias evolutivas e econômicas.

Eu mesmo estou profundamente convencido de que amor e compaixão — as duas faces do altruísmo — são os valores que norteiam a existência humana e o coração do caminho espiritual. A gentileza amorosa é o desejo de que todos os seres tenham felicidade, enquanto a compaixão foca em erradicar seu sofrimento.

Minhas experiências com mestres espirituais na tradição do budismo tibetano ao longo de 45 anos vivendo na Ásia influenciaram-me profundamente. Particularmente inspiradora é a convicção budista de que todo ser humano possui um potencial indestrutível de bondade e sabedoria. Também aprendi lições valiosas ao participar de serviço humanitário, incluindo 140 projetos médicos e educacionais no região do Himalaia através da Karuna-Shechen, a organização que fundei.

Nossa era está em confronto com muitos desafios, entre elas a necessidade de conciliar as demandas em três escalas temporais: curto, médio e longo prazo, em que três tipos de interesses se sobrepõe: os nossos, os interesses daqueles próximos a nós e os de todos os seres sencientes. A curto prazo, precisamos responder à demanda imediata da economia presente; a médio prazo, à busca pela felicidade; e a longo prazo, à futura saúde do meio-ambiente.

Em relação ao meio-ambiente, até recentemente, sua evolução vinha sendo medida em termos de eras geológicas e climáticas, ao longo de milhões de anos. Atualmente, o ritmo das mudanças continua acelerando devido à convulsão ecológica, provocada pelas ações humanas. Em particular, a “Grande Aceleração” que tem ocorrido desde os anos 50 definiu uma nova era, chamada de Antropoceno (“era dos humanos”), em que, pela primeira vez na história, a atividade humana está alterando profundamente (e atualmente degradando) todo o sistema que mantém a vida na Terra.

Esse desafio completamente novo nos pegou de surpresa. Se nossa obsessão com o crescimento quantitativo continuar, com o consumo dos recursos naturais aumentando na atual taxa exponencial, precisaremos de três planetas em 2050. Não temos isso.

O que podemos fazer sobre essa condição? Apenas um conceito revolucionário e unificador poderá nos guiar para fora desse complexo labirinto de preocupações. Por décadas, meus encontros com líderes espirituais, filósofos, psicólogos, neurocientistas, economistas e ambientalistas me convenceram de que o altruísmo é o cordão de Ariadne que nos permitirá ligar harmoniosamente os desafios da economia no curto prazo, qualidade de vida a médio prazo e o futuro do meio ambiente a longo prazo.

Alinhados com a ênfase de Darwin na importância da cooperação na natureza, avanços recentes na teoria da evolução nos permitem projetar um altruísmo estendido que transcende os laços de família e tribo, e enfatiza o fato de que seres humanos são essencialmente “super-cooperadores”, para usar o termo cunhado por Martin Nowak.

Avaliar as capacidades de transformação tanto individual quanto coletiva é importante se queremos encorajar o desenvolvimento de uma sociedade mais altruísta e um mundo melhor.

Milhares de anos de prática contemplativa confirmam o poder da transformação individual. Essa sabedoria das eras agora foi confirmada por pesquisas da neurociência que demonstraram: qualquer tipo de treinamento — como aprender a ler ou tocar um instrumento — induz uma reestruturação no cérebro, tanto no nível funcional quanto estrutural. O mesmo tipo de reestruturação ocorre quando cultivamos benevolência e desenvolvemos amor altruísta e compaixão.

Como passamos da transformação pessoal para a mudança da sociedade? Estudos recentes feitos por intelectuais como Richerson e Boyd, autores de “Not by Genes Alone”, sublinham a importância da evolução das culturas, que é mais lenta que a evolução individual, mas muito mais rápida que alterações genéticas. A evolução cultural é cumulativa e se transmite ao longo das gerações através de educação e imitação. Culturas e indivíduos continuam a se influenciar mutuamente. Pessoas que crescem em uma cultura nova são diferentes, porque seus novos hábitos alteram seus cérebros, através da neuroplasticidade, e afetam a expressão de seus genes, com a epigenética. Esses indivíduos contribuem para a evolução de sua cultura e instituições, de modo que o processo é repetido a cada geração. Podemos então olhar adiante para uma bem-vinda evolução em direção a sociedades mais cooperativas e altruístas.

Esse ideal está inteiramente dentro de nosso alcance. Pesquisas recentes também demonstraram que desde bem cedo na infância, estamos programados para cooperar e ajudar. Mesmo bebês muito novos reconhecem a bondade nas outras pessoas e demonstram preferi-la em relação ao oposto. No “laboratório de bebês” de Paul Bloom, na Universidade de Yale, bebês entre 6 e 10 meses foram capazes de reconhecer o comportamento bondoso e mostrar sua preferência por ele em relação a atitude que destrata outras pessoas. De modo similar, o Max Planck Institute, em Leipzig, identificou bebês de 12 meses espontaneamente exibindo comportamento de ajuda mútua e cooperação, sem serem ensinados por adultos e sem nenhuma recompensa.

Com essa fundação, podemos começar a promover uma sociedade mais altruísta, focando em cinco pontos:

  • Precisamos aprimorar a cooperação, que inclui favorecer o aprendizado cooperativo em relação ao competitivo, nas escolas e organizações.
  • Precisamos ter como objetivo a harmonia sustentável, que reduz desigualdades e preserva o meio-ambiente, fazendo mais com menos.
  • Precisamos incentivar uma economia que se importe com as pessoas. Uma economia movida por interesses egoístas não tem como aliviar a pobreza ou cuidar do meio-ambiente.
  • Precisamos de compromissos locais com um senso de responsabilidade global.
  • Precisamos estender o altruísmo a outras formas de vida: o 1,3 milhão de espécies catalogadas que são nossos co-habitantes neste mundo.

O altruísmo não deve ser relegado ao reino das nobres ideias utópicas, mantido por algumas poucas pessoas de bom coração, mas ingênuas. Muito pelo contrário, ele é um fator determinante para a qualidade da nossa existência agora e no futuro. Precisamos ter o insight para reconhecer isso e a audácia para proclamá-lo. A revolução altruísta está a caminho. Que todos sejamos parte dela.

Publicado originalmente no Huffington Post.
Imagem: Brittany, França, por Matthieu Ricard.