Tenha estratégias para os tempos difíceis

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A habilidade de lidar com os desafios da vida não é algo que ou já nascemos com ela ou não. Uma das descobertas mais animadoras em pesquisas recentes é que ter estratégias para lidar com situações difíceis, assim como muitas outras habilidades, é algo que pode ser aprendido, praticado e aperfeiçoado, frequentemente afetando amplamente nossa qualidade de vida.

Por que fazer isso?

Todos nós temos que enfrentar os desafios da vida diária. E todos temos momentos de estresse, tristeza, dor ou trauma em nossas vidas. Quão bem reagimos a essas situações tem grande impacto no nosso bem-estar.

Felizmente, várias das ferramentas que podem ajudar a nós e aos outros a sermos mais felizes, são também ferramentas que nos ajudam a enfrentar dificuldades. E elas também são capazes de nos tornar abertos a novas experiências e de aceitar novos desafios [1], nos ajudando assim a aprender, desenvolver nossas habilidades, gerar otimismo sobre o futuro e confiança em nossa capacidade para enfrentar o que vier pela frente.

Então mesmo que você não esteja passando por nenhum desafio particular neste momento, cada um de nós pode se beneficiar ao acumular mais ferramentas e técnicas para lidar com obstáculos.

Por onde começar

1. O que você já possui no seu kit de ferramentas?

Uma boa maneira de começar é fazer uma balanço das ferramentas e técnicas que você usa frequentemente e quais funcionam melhor para você.

Talvez você nunca tenha pensado nelas como estratégias para lidar com problemas, mas todos nós temos coisas como: uma música que ouvimos no caminho do trabalho que nos motiva; sair para uma corrida quando nos sentimos para baixo; encontrar um amigo que sempre nos faz rir ou que nos dá conselhos equilibrados e significativos.

É igualmente importante considerar também os pontos em que é preciso melhorar: quais são as lacunas de seu arsenal? Você pode ser ótimo em resolver problemas, mas talvez encontre dificuldades quando seu humor está para baixo e não há nenhuma solução óbvia à vista. Ou talvez você perceba que tem habilidades para trabalhar emoções e humores mais difíceis, mas que precisa progredir sobre ter metas claras e buscá-las com planos de ação. Ter uma variedade de ferramentas é a chave para a flexibilidade de lidar bem com o que aparecer pela frente.

Também pode ser o caso de que suas estratégias façam você se sentir melhor a curto prazo, mas não a longo. Por exemplo, beber todas noites por estar infeliz pode ajudar a anestesiar os sentimentos ruins na hora, mas não ajuda em nada a resolver o que está causando essa infelicidade. Então pense: quais outras atitudes você poderia tentar que de fato te ajudariam a longo prazo?

2. Use este site

Muitas das chaves e ações espalhadas por este site podem ser boas adições à sua coleção. Não apenas para aumentar quão feliz nos sentimos, mas também para servir de apoio em tempos difíceis – para os desafios diários ou momentos de grande trauma. Para começar, por que não tentar:

  • Doar – Focar em ajudar outras pessoas desvia nossa fixação com as próprias preocupações. Sempre ganharemos um ângulo diferente ao percebermos que outras pessoas também estão com dificuldades. E ter a capacidade de ser uma fonte de apoio para as pessoas que amamos ou necessitados tem um impacto positivo em nosso próprio bem-estar e no das outras pessoas.

  • Relacionar-se – Ter o apoio das pessoas à nossa volta é extremamente importante para a felicidade, especialmente quando passamos por tempos difíceis. Então, construir nossos relacionamentos é vital, e também ajuda a construir comunidades mais felizes e resilientes.

  • Exercite-se – Seja ativo fisicamente. Saia de casa. Fique um pouco com a natureza. Cada uma dessas opções provaram ser boas táticas para melhorar nosso ânimo e diminuir o mal-estar.

  • Aprecie – Estar presente é uma ferramenta poderosa para nos conectarmos melhor ao que estamos sentindo, acalmar-nos e focar a mente.

  • Emoções positivas – Conhecer algumas maneiras diferentes de aumentar nossas emoções positivas pode ajudar e muito quando as coisas estão difíceis. Por exemplo, o hábito da gratidão é algo ótimo para se cultivar; ou às vezes rir ainda é o melhor remédio!

  • Aceitação – Às vezes nossos problemas são causados por nós mesmos, ao sermos desnecessariamente severos conosco. Então podemos gerar resiliência trabalhando nossas habilidades de auto-aceitação, tais como conhecer nossos pontos fortes e desenvolver maneiras mais claras de explicar nossa situação a nós mesmos.

  • Sentido – Conectar-se com algo maior que nós mesmos, como uma fé, prática espiritual ou uma boa causa, são outras maneiras muito importantes de nos tornarmos mais resilientes.

3. Adicione o hábito de escrever ao seu kit

Tempos emocionalmente difíceis podem prejudicar nossa saúde emocional e física. Uma pesquisa conduzida pelo psicólogo James Pennebaker mostrou que o ato de escrever sobre dificuldades ou traumas cria uma oportunidade para se compreender as situações e encontrar sentido, e parece ter um notável potencial terapêutico. Isso não é útil para todos, mas os que se beneficiam com isso vêm de todo tipo de formação cultural ou social [2].

Pennebaker pediu às pessoas para escreverem, 15 minutos por dia por uma semana, sobre uma situação difícil ou mesmo traumática. Enquanto para muitos relembrar tal experiência não tenha sido confortável, um ano depois aqueles que fizeram isso estavam mais saudáveis do que o grupo de controle, ao qual foi solicitado que apenas escrevessem um diário comum. Essa técnica agora é usada por muitos psicólogos e pesquisadores. Pode parecer estranha a ideia de que reviver experiências difíceis e emoções negativas traga benefícios, mas Pennebaker sugere que: “Encarando nossos traumas, não mais terminamos em fossas psicológicas. Ao invés, podemos construir pontes para os pontos fortes consideráveis que todos nós temos.” [3]

Então se algo está te incomodando por que não tenta escrever sobre o assunto? Escrevendo a mão ou no computador lembre-se que isso é para você: não é preciso mostrar aos outros (a menos que queira). Essas são as instruções exatas do pesquisador:

“Pelos próximos quatro dias gostaria que você escrevesse sobre os sentimentos e pensamentos mais profundos sobre a experiência mais traumática que você já tenha vivido em sua vida. Quando escrever, gostaria que você se deixasse levar, expondo seus mais profundos pensamentos e sentimentos. Você pode restringir seu assunto a seus relacionamentos com os outros, incluindo pais, amantes, amigos ou parentes. Talvez você queira também conectar essa experiência com seu passado, presente e futuro — ou a quem você tem sido, quem você gostaria de ser e quem você é agora. Você pode escrever sobre os mesmos problemas ou experiências todos os dias ou pode escrever cada dia sobre um trauma diferente. Tudo será completamente confidencial.” [3]

Este exercício é livre: você escreve aquilo que vem à sua cabeça.
Para quem achar mais fácil ter uma estrutura, a psicóloga Sonja Lyubomirksy desenvolveu as seguintes perguntas, baseadas no exercício original de Pennebaker (isso também pode ajudar como estrutura de um diálogo, se você sentir que seria útil conversar com um amigo ou membro familiar) [4].

  • Primeiro, aceite que sua perda ou trauma causaram em você uma grande quantidade de sofrimento e dor [4].
  • Então considere o que você fez nos momentos difíceis, ou como reagiu a eles, ao qual você se sinta orgulhosa [4].
  • Depois, considere o quanto você evoluiu como resultado da sua perda ou trauma. Por exemplo, você acha agora que tem uma nova perspectiva em sua vida (mesmo que seja negativa)? Você está mais compassivo agora, mais grato, sensível, paciente, tolerante ou com mente aberta [4]?
  • Como o trauma afetou positivamente seus relacionamentos? Algum deles se fortaleceu de alguma maneira? Algum deles se tornou mais próximo, intimo ou colaborativo [4]?
  • Como você poderia usar o que aprendeu para seguir em frente?

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Imagem no topo: Lisa Redfern, Flickr/CC.

Referências
 [1] Vaillant, G.E. (1992), Ego Mechanisms of Defense: A Guide for Clinicians and Researchers, Washington, DC, American Psychiatric Press
 [2] Niederhoffer, K.G. & Pennebaker, J.W. (2009) Sharing one's story: On the benefits of writing or talking about emotional experience. In S.J. Lopez and C.R.Snyder. Oxford Handbook of Positive Psychology. NY:Oxford University Press
 [3] bid, p. 630.
 [4] Lyubomirsky, S. (2008). The How Of Happiness: A Scientific Approach To Getting The Life You Want. New York: Penguin Press. p.166.